Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015
É apenas uma aldeia de escravos

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Texto: Luís Pedro Nunes | Fotografias: Alfredo Cunha

 

Podemo-nos comover com uma fotografia aí sentados em casa. Já aconteceu. É tremendo o poder de uma imagem. Mas quando temos uma agenda apertada de situações humanitárias limite num país que está em último lugar no índice de Desenvolvimento Humano, o cérebro começa a arranjar defesas e a ficar dormente. Estamos ali nos locais e vamos banalizando a miséria no seu estado puro.

Estamos na República do Níger há cinco dias e somos uns privilegiados. Normalmente já teríamos sido detidos e recambiados. Pouca gente sabe sequer o que é o Níger. Quando dizemos que estivemos lá pensam que estamos a falar da Nigéria que é outro país que faz fronteira – esse sim conhecido e nas notícias. Níger – ex-colónia francesa, 16 milhões de habitantes, 2/3 é deserto. A norte tem a Líbia e a Argélia. A sul, a Nigéria e o Benim. A este, o Chade. E a oeste, o Mali e o Burkina Faso. Um pesadelo

em termos securitários e um pólo agregador das rotas de emigração para a Europa. Um dos países mais pobres do mundo. E dos mais esquecidos. Não tem guerra civil e lá tem conseguido evitar golpes de estado nos últimos anos. Tem uma ténue economia entregue parcialmente a chineses e recursos naturais como urânio, explorado pelos franceses, e a alma a ser encantada por um islão cada vez mais revoltado. Está algures perdido na África ocidental a ser devorados pelo deserto e pela miséria. E uma população que irá duplicar em menos de 20 anos. Termos ido na comitiva da AMI, ali em missão exploratória para parceiras humanitárias, concedeu-nos a possibilidade que não é dada a jornalistas há anos: a de ficar no país com o benefício da dúvida. E de sermos recebidos por ministros e pela primeira-dama e de ir ao terreno. E de termos feito bons amigos. Nessa manhã, já com um calor que na nossa perceção iria roçar os 50 graus (talvez sejam só 45 ou 46) estávamos pois a deixar Niamey, a capital, com escolta militar, passar as barreiras policiais na estrada e chegar a essa tal aldeia de escravos num local desolador que uma associação de direitos humanos locais, a Timidria, apontava como exemplo de sucesso na auto-determinação. Uma aldeia de escravos entre tantas. Esta tinha apoio.

Os jipes param. Chegámos a Gurti Korà. Os soldados posicionam- se porque sim. A aldeia corre para nós com os mais velhos à frente para nos cumprimentar efusivos, agarrando a nossa mão com as suas em concha, ou puxando ligeiramente o braço e segurando o antebraço como se quisessem evitar que ao fazer o cumprimento o nosso não se machucasse. Há sorrisos desdentados dos anciãos que mostram grande satisfação. Crianças, sempre elas, por aqui, por ali, por todo o lado, as mulheres a carregar bebés. Sempre. Afinal, a média de filhos por mulher é de sete. Sim, sete por mulher.

Visualmente é “apenas” mais uma aldeia. Uma aldeia que é um espaço desolado de cabanas. Talvez mais miserável e esmagada pelo sol no meio do nada numa terra de cor alaranjada do Sahel.

O dirigente da Timidria pede para reunir a aldeia debaixo da árvore mais frondosa para depois fazer a visita. Homens mais velhos nas cadeiras em meia lua, mulheres mais velhas no chão sentadas no centro (toca um telemóvel? É de uma delas? Há assim momentos absurdos nas pregas do absurdo). As mais novas de pé atrás. Crianças a zumbir por todo o lado. O chefe tem a seu lado o professor que irá traduzir do idioma local para francês. É suposto estarmos numa aldeia a que foi concedida, de alguma forma, a libertação, ao terem a proteção da associação que lhes arranjou as terras. Um pequeno exemplo de sucesso. É difícil explicar... Oficialmente não há escravatura no Níger desde 1960. É criminalizada desde 2003. E no entanto, aquelas pessoas que estão ali connosco não têm direitos. Existência jurídica. O professor primário tem que repetir várias vezes a tradução do chefe da aldeia (que não fala francês) até que o representante da Timidria – homem de coragem, um negro grande imponente licenciado na Sorbonne – perceba finalmente o que se passou. No chão, sentadas nos panos, as velhas acenam com a cabeça e murmuram em concordância. Já perderam tudo de novo. Não têm nada. Nem terras, nem poço de água. De repente, há um buraco que se abre para uma existência de outro tempo. E depois de estarmos lá dentro tudo faz sentido mesmo que seja como numarealidade paralela.

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 Esqueçamos o calor e a sede. Aqueles seres humanos que estão ali à nossa frente e que existem – já lhes tocámos, têm textura, pele e vida e estão a sofrer – são escravos. E não se trata de uma expressão. Pertencem, como uma cadeira ou uma vaca, a outros seres humanos. E são-no eles como foram os seus pais e avós há gerações e gerações. (Falámos todos depois sobre isso no ar condicionado do hotel: como o próprio modo de encarar é diferente, as cabeças e os queixos baixos que olham de um nível inferior para cima, os braços cruzados, uma aflitiva subserviência e acomodação que não reproduz a vilania do que o chefe está a relatar. Há um sismo dentro de nós naquele semideserto amarelado.)

É que vou explicar de novo. Há uma outra aldeia a uns quilómetros que é senhora e dona desta e bem como destes seres humanos. E que ainda vem buscar as mulheres para as levar e utilizar sexualmente. Mesmo que sejam casadas. É disto que falo quando digo que são escravos. E os homens tratam do gado e são tratados como gado. Não é um eufemismo. Mas o que se passou em Gurti Korà para estarmos ali debaixo da árvore e o ambiente estar pesado? É que houve um imbróglio qualquer, porque a Associação Timidria tinha arranjado maneira de eles terem uns dois hectares de terra e um poço de água. A tradução vai e vem entre complicações, pois também envolve más decisões do chefe que, por isso, deve estar a enrolar a história. Aparentemente na sua ambição de aldeia libertada terá votado num chefe maior de todas as aldeias que acabou perdedor. O que levou à ira do novo líder que unilateralmente obrigou à venda de terras e mandou tapar o poço. De repente, começamos a achar que faz sentido. Até há ironia. Dentro daquelas regras, uma aldeia “libertada” usou a sua liberdade para votar no líder errado e viu-se de novo na condição de escrava que nunca terá perdido para o outro. E as velhas acenam com a cabeça. Atrás de mim, um miúdo de dois anos encosta a ponta do nariz na minha nuca. Tem uma t-shirt verde com letras amarelas a dizer OBAMA. É uma marca de roupa local. “E vivem de quê?”, o chefe encolhe os ombros. De ajuda. Olho em redor e não vejo nada. Nem uma cabeça de gado. Nada. Não se consegue perceber. Não é para perceber. Cá dentro, as nossas estruturas começam a ceder. Se calhar pensamos que isto é apenas um caso. Não. É apenas um entre tantos. Contam-nos que tínhamos passado pelo que pensávamos ser apenas o centro de uma aldeia, mas é um caminho de areia que divide duas: de um lado a aldeia dos escravos; do outro a dos senhores. E não se misturam.

Os escravos são uma questão regional de todo o Sahel. Da Mauritânia ao Senegal, do Chade ao Sudão. E as autoridades do Níger, pelo menos neste momento, dizem estar abertas ao tema, para que deixe de ser tabu. Mas que tema é este? O que é um escravo? Não estamos a falar propriamente de um bem transacionável mas de um ente que nasce sem direitos. Há aqui um mundo de diferenças. E é-nos difícil porque queremos algo para nos situar. Serão como os “intocáveis” na Índia? Não mas... É uma questão cultural, que vem desde a tradição tuaregue e que agora tem vindo a ser ainda mais intensificada com a crescente islamização do país e a “norma da 5ª mulher” que é uma interpretação regional do Islão.

A escravatura está entranhada na sociedade do Níger, seja urbana ou rural e não só nas etnias tuaregues (que tem um complexo sistema de castas) e mauberes, sendo que a maioria dos casos de escravos vem perdida na árvore das gerações. Mas não se pense que chega ali e é algo que salta à vista. Podemos olhar e nada ver. Não há marcas nem sinais, grilhetas ou correntes. Apenas inexistência de direitos de ser um humano acomodado há gerações a este facto, sem hipótese de mudar. Fomos dar uma volta pela aldeia. O índice de natalidade nem é dos mais altos. Para 600 pessoas há 200 crianças. Duas das “salas” de aula são de palha e as crianças estão perfiladas, muito arranjadinhas, vestidinhas e compostas. São desafiadas a ler uma frase no quadro. Digo-vos que seria uma cena até inverosímil num telefilme americano de tão perfeita que saiu. A palhota no deserto, as crianças escravas, lindas e enternecedoras, a ler num tom suave e doce uma frase em francês carregada de “rrr”. O sol a entrar pelas frechas das canas do tecto, o silêncio delas, o ar submisso mas muito direito, a incapacidade de as “desmontar” para um estado de crianças naturais, a certeza de que elas já sabem que são “escravas”. Que idade tens? Não sabe. Ali sim, qualquer coisa bateu em todos nós. Bateu. Saímos diferentes lá de dentro. Tínhamos descido a um estado de compreensão e entendimento do abjecto e sem perder as nossas referências. Estávamos cá em baixo agarrados a um ponto de interrogação impotentes e derrotados. E chega a agitação da partida. Os cumprimentos a todos. Tanta alegria. A sensação de que dentro de minutos ali ficariam apenas uns rastos de jipes e o silêncio e o calor. Havia uma sensação de indignação misturada com uma raivazinha. Mas não sei se devemos ir por aí. Apenas o não querer esquecer aquele momento em que faltou o ar quando saímos da sala. É a diferença quando a realidade nos é descodificada. Dias antes, tínhamos estado num campo de deslocados que tem o patrocínio da primeira-dama Aissata Iossoufou Mahamadou. Trata-se de uma população que vivia numa pequena ilha no meio do Rio Níger que há dois anos foi devastada pelas cheias. Um dos dramas deste país, a juntar à bomba demográfica: as alterações ambientais, o avanço do deserto, a erosão, alterações do rio seguidas de períodos de seca.

Os habitantes da aldeia tiveram que ser mudados para uma zona a dois quilómetros da margem e só agora se está a tentar arranjar um terreno para que se consiga construir uma nova aldeia. Lá estivemos a ver e conversar. E mesmo sendo uma aldeia da Fundação Guri da primeira-dama, as condições são humanamente difíceis de descrever. Pedaços de tendas de ajuda humanitária cosidas a canas fazem de abrigo a centenas de pessoas. O folheto da Fundação não esconde a realidade do país: índice de fecundidade de 7,1, (a mais elevada do mundo) e uma taxa de crescimento anual da população de 3,3 o que faz uma pressão brutal sobre os recursos naturais e uma taxa de mortalidade infanto-juvenil de 130%, sendo que 65.9 vive abaixo do limiar da pobreza e as mulheres são 2/3 dos pobres. Está o retrato feito com números. Visitar esta aldeia já é de si uma experiência poderosa. Mas quem está habituado a fazer missões humanitárias em África sabe que esta é a realidade em muitos países. Demasiados mesmo. O que não sabia, e soube-o só depois, é que também esta era uma aldeia de escravos. E faltou este “filtro”. E entre ver uma aldeia de deslocados, de gente sem nada, num dos países mais pobres do mundo e perceber que é uma aldeia de gente sem nada num dos países mais pobres do mundo, mas de gente escrava – teria feito toda uma civilização de diferença. Nunca a palavra escravo foi mencionada.

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 O que queriam era saber como chegar ao rio e pescar. E ter de novo uma aldeia a que chamar sua. Devemos suspeitar do que vemos e como vemos. Mesmo o que vos conto é parte de parte de uma teia. Não se percebe uma mistura de culturas centenárias numa semana. Claro que a escravatura é um tema tabu para mostrar a olhos externos mesmo que se diga que não. Está tão enraizado na sociedade que só deve parecer estranho quando alguém de fora coloca o assunto para a mesa. E deve fazê-lo com cuidado. “Ter” escravos... Desconfiamos mesmo que deve ser banal mesmo nas classes mais altas. Nunca o saberemos. E a escravatura está escondida sob forma de matrimónio. É a chamada 5ª mulher e

que no fundo é o grande alimentador desse ciclo. E não vai ser qualquer ONG ou movimento externo ou grupo de pressão que irá alterar a situação. O Islão permite ter quatro mulheres, mas no Níger um homem pode ter mais, no que é conhecido pela 5ª esposa (que podem ser 5, 10, 15 ou mais... mas sempre conhecidas pela 5ª. É tudo uma questão de dinheiro). A questão é que não só não há casamento em si, como ela não obtém nenhum direito matrimonial sendo, no fundo, uma escrava não só do marido como das quatro mulheres legítimas. As relações domésticas acabam por ser mais complexas. A 5ª esposa é obviamente muito mais nova, não tem “dia fixo”, o que cria uma disrupção no equilíbrio estabelecido. É sabido que muitas das legítimas têm ciúmes, o que leva a abusos sobre as 5ªs mulheres. E ociclo da escravatura recomeça, dado que os filhos destas também não têm quaisquer direitos. E trata-se de uma distorção do Islão, pois é-lhes dito que é vontade de Alá que sejam escravos e só se obedecerem ao seu dono é que irão para o Paraíso quando o Corão diz precisamente que nenhum muçulmano tem poder para escravizar outro muçulmano. Mas esta é uma visão muito parcial de um povo e de um país. Podíamos ter estado dias sem fim na capital, Niamey, e vivido numa caótica “normalidade” de uma capital chocante de pobre. Trata-se de uma cidade de milhares de motas chinesas, carros que serpenteiam, sem regras e gente que sorri. Vêem-se milhares de sorrisos. Se o primeiro impacto é a cor da terra amarelada que se confunde com as paredes. O segundo é o lixo e o plástico que voam por todo o lado como parte das paisagens. O terceiro serão os sorrisos. Eu e o Alfredo fizemos a cidade de uma ponta a outra. Só com um motorista. Não tivemos um problema.

Há poderosas armas para usar: um sorriso e um “bonjour!” ou um “salam aleikum!”.

Mas entre a aldeia dos escravos e o turbilhão da cidade há camadas complexas de existência que só posso descrever. São o formigar colorido de pessoas nos mercados, a passar de um lado para o outro, a fazer pela vida e a conseguir passar mais um dia. De que vivem? Fazem biscates, desenrascam-se. O Alfredo avança a um ritmo acelerado a fotografar. É impressionante os milhares de telemóveis. A quantidade de cartões pré-pagos que se vendem na rua. Dizem que os chineses já dominam 50 por cento da economia e, contudo, nunca vimos um chinês. Só o mega-coumpound completamente fechado onde há hotéis de escritórios. E crianças. Em todo o lado. E como é que a maior parte delas tem uma camiseta de futebol? Os telemóveis são chineses. Há miúdos de telemóveis, mas são só a carcaça. Avançamos para uma lixeira perto do matadouro. É um fosso muito profundo no Inferno da parte mais que insanamente pobre da cidade. Plástico (sempre ele) a arder. Um burro, cabras, calor das chamas, uma criança no meio daquilo, um tipo tresloucado que me tenta vender um par de chinelos plásticos meio queimados, outro que parece avançar com uma barra de ferro para nós e passa ao lado. A estes, numa clínica ali ao lado em que estivemos, chamam os indigentes. Há gente curiosa. Um velho muçulmano não está a gostar que se esteja a fotografar aquilo. É natural. Nada nos foi propriamente escondido na capital da República do Níger. É bom que se perceba que isto é uma seleção do mau. Fomos ver o pior do pior.

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As urgências do hospital central onde as poças de sangue se acumulam no chão e cada um tem que trazer as talas para as suas fracturas (mesmo que seja um pedaço de papelão) ou um centro de mulheres com fistulas obstetrícias – grávidas que se rasgaram de dentro por não terem tido uma cesariana e que se vêem ostracizadas pelos maridos. Homens a curtir peles de cabra num cheiro nauseabundo ao calor da uma da tarde que posam, mas sabem que o Benfica joga nesse dia. É uma visão parcial. Podíamos ter ido ver as girafas e os hipopótamos e não fomos. Ou o trabalho de outras ONGs. Já fomos recebidos em países em que se vê o esforço para “compor” a chegada de uma delegação. Aqui nem haveria como. É o que é. O país sabe que é pobre. Um dos homens que nos recebeu também fez notar um pormenor: não temos muito para dar mas esmeramo-nos a receber bem. Foi verdade. Tanta cordialidade e cordialidade espontânea e não a descrevi aqui. Não há agressividade. A desconfiança inicial é esbatida no primeiro minuto. Os homens são imponentes, as mulheres graciosas as crianças lindas e, contudo, sabemos, eu sei, alguns de nós sabemos, que tudo vai piorar. Muito. Basta pensar que a população daquele país vai duplicar e então o que vai acontecer à Europa? Também fomos a jantares faustosos. Podíamos descrever mas seria demagogia. É África. Pessoas a querer receber bem. E fomos porque a diplomacia faz parte deste trabalho. Agora que leram e que deu para perceber que há uma realidade por baixo do que se vê e do pouco que se sabe, também que se perceba que diabolizar o Níger não vai resolver nada. Pelo contrário. Se há coisa que o Níger precisa é de uma mão e não de um punho cerrado ou um dedo apontado. E este texto é uma declaração de amor pelo Níger e por aquelas pessoas que vão buscar um sorriso a uma zona que, pelos vistos, a alma conserva sempre intacta.

Da viagem ao Níger resultaram três projetos da AMI em parceria com três organizações locais (PIPOL): a reabilitação da Clínica Gamkally e formação de profissionais de saúde, a construção de uma escola e um dispensário solicitadas pela Fundação Guri para a futura aldeia de pescadores deslocados. E juntamente com a associação Timidria a aquisição de um terreno para a futura construção de uma escola e de um poço para a aldeia de escravos de Gurti Korà.



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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014
"AMI oferece espetáculo e almoço às famílias apoiadas"

 



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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014
"Ninguém diga: Desta água não beberei"

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Vice-presidente da AMI e responsável pela administração e coordenação geral da Ação Social em Portugal, Leonor Nobre recorda o início da AMI nesta área, a evolução da abordagem no combate à pobreza e os novos perfis das pessoas que atualmente solicitam apoio à AMI.

 

Quais as razões que motivaram o início da ação social da AMI em Portugal?

Após 10 anos de intervenção no mundo, foi sobretudo o contexto crescente da pobreza na Europa e em Portugal. Lembro-me que enquanto estudei em Bruxelas nunca vi um sem-abrigo ou um mendigo na rua. Quando lá regressei, no final dos anos 80, vi vários nas estações de metro e noutros pontos da cidade. Um fenómeno que se alargou também a Portugal. Havia muita gente que nos escrevia e contactava perguntando: se ajudam pessoas carenciadas em todo o mundo, porque é que não atuam também em Portugal? Decidiu-se então intervir em Portugal com as pessoas sem-abrigo. Na altura, existia o Alto Comissariado da Luta Contra a Pobreza (ACLCP) que era presidido pela Dra. Elza Chambel e que, desde a primeira hora, nos incentivou e apoiou porque existiam poucas instituições a darem apoio aos sem-abrigo.

 

Entretanto, esse apoio foi evoluindo a outras camadas da população?

Houve uma evolução fruto da própria existência dos centros. O primeiro foi a Porta Amiga das Olaias, inaugurado em Dezembro de 1994. Lembro-me de assistir nos primeiros tempos, a um isolamento total das pessoas. Os sem-abrigo comiam e iam-se embora. Não falavam com ninguém, muito menos entre si. Isso impressionou-me. Entretanto, as pessoas que recorriam ao centro foram ganhando confiança com as técnicas sociais e contando as suas necessidades, pedindo ajuda noutros serviços.

Simultaneamente, o ACLCP incentivou-nos a dar outras respostas. Começámos a ter muita procura ao nível do apoio social. Ninguém utilizava o restaurante sem primeiro falar com uma técnica social e isso ajudou-nos a compreender as necessidades e a alargar as respostas. Foi interessante assistir a essa mudança de comportamentos. Do isolamento, as pessoas passaram a ser até um pouco reivindicativas, a terem noção dos seus direitos.

 

É um sinal de integração, essa exigência.

Sem dúvida. O facto de pagarem uma quantia simbólica por alguns serviços, dá-lhes essa autoestima. Estou a pagar um serviço, logo tenho o direito a reclamar.

 

A ação social da AMI iniciou-se com esse registo de apoio a pessoas sem-abrigo mas foi-se alargando…

Sim, com a abertura de novos centros, em Almada, por exemplo. Já não era tanto a população sem-abrigo, mas pessoas que viviam no Bairro do Pica-pau Amarelo, com outro tipo de carências e necessidades. Começámos a alargar o apoio a famílias carenciadas. O que mais motivou as pessoas a recorrerem à AMI foi o facto de existir integração. O centro dá verdadeiro apoio à pessoa e não é apenas uma cantina…

 

Para além dos centros Porta Amiga, a AMI foi alargando os serviços e infraestruturas como os abrigos noturnos e o apoio domiciliário, por exemplo. Como é que surgiram estas valências?

As pessoas iam referindo as suas necessidades. A nossa luta sempre foi o encadeamento de soluções para que a pessoa sem-abrigo tivesse uma casa própria e pudesse gerir a sua vida com autonomia. Assim decidimos criar abrigos em Lisboa e Porto. O primeiro em Lisboa, com o apoio da Câmara Municipal. O simples facto de uma pessoa saber que tem um sítio onde passar a noite predispõe logo para uma atuação diferente no seu dia-a-dia, na procura de emprego. A ideia dos abrigos é essencialmente facilitar a inclusão social pelo emprego.

Com esta evolução dos princípios basilares da AMI em Portugal, fomos sendo solicitados para tantos apoios, que hoje a ação social da AMI toca praticamente todas as necessidades das pessoas que estão excluídas.

Já o apoio domiciliário começou como uma empresa de inserção, criada através do Instituto de Emprego. Na altura, servia apenas refeições ao domicílio. No entanto, considerámos alargar os serviços. Incluímos limpeza e higiene, por exemplo. Avançámos com um projeto que apresentámos junto da Segurança Social. Hoje temos duas carrinhas a circular, uma para as refeições e uma segunda para tratar das questões de higiene.

 

Como é que a AMI tem sentido a crise ao nível dos pedidos de apoio? Tem encontrado novos perfis de pobreza?

Ninguém diga “desta água não beberei”. Num momento de crise como o que estamos a viver, isto é ainda mais notório. Os exemplos são vários. As dependências, o desemprego, a solidão atravessam qualquer classe social. Hoje, muitas pessoas que tinham trabalho, filhos no colégio, faziam viagens ao estrangeiro, enfim, tinham a sua vida organizada, estão a recorrer aos nossos serviços. Basta que um dos cônjuges perca o seu emprego para que tudo se complique.

Existem casos de pessoas que querem ir buscar alimentos aos centros sociais da AMI (Portas Amigas) fora dos horários normais para não serem vistos. Hoje em dia ter um emprego com salário mínimo não quer dizer que não se necessite de ajuda.

A pobreza envergonhada tem aumentado. Uma grande parte das pessoas que recorrem pela primeira vez aos nossos centros faz parte dessa classe média, dessa pobreza envergonhada.



publicado por AMI às 14:43
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014
“O nosso objetivo é chegar às cinco mil horas de voluntariado”

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Durante este mês, os clientes da FNAC são desafiados em loja pelos nossos voluntários, que se encontram a apoiar nos embrulhos de natal, a ajudar na luta contra a pobreza. Os donativos recolhidos nos mealheiros são reencaminhados para os serviços sociais da AMI em Portugal. Luísa Nemésio, secretária-geral da AMI, participa todos os anos nesta iniciativa e explica um pouco melhor a importância da mesma.

 

O que a leva a participar nesta campanha?

A FNAC desenvolveu uma parceria muito consistente com a AMI. Foi pensada e construída em conjunto para que os colaboradores da FNAC participassem ativamente e permite trazer novos parceiros para a construção de um projeto estruturado sempre em evolução. As Infotecas FNAC/AMI  permitem o acesso às novas tecnologias dos beneficiários dos Centros Porta Amiga. Um outro projeto inovador "Os novos talentos" da FNAC possibilita a projeção de jovens artistas portugueses, sendo que a venda a um preço muito acessível a qualquer cliente reverte totalmente para o financiamento das Infotecas. A campanha do Natal é outra forma de conseguir fundos para a sustentabilidade desta iniciativa.

Como poderia recusar embrulhar os presentes daqueles que participam na construção deste projeto como forma de agradecimento? Graças a eles foi possível abrir cinco infotecas em Cascais, Almada, Porto, Vila Nova de Gaia e Funchal. Espaços que acolheram mais de 95 ações de formação em Tecnologias da Informação e Comunicação com mais de 700 participantes.

 

As pessoas têm reagido favoravelmente, voluntários AMI e clientes da FNAC?

A dúvida que eventualmente possa surgir é dos voluntários estarem a retirar postos de trabalho. Uma questão que é totalmente esclarecida, uma vez que a FNAC não conta à partida com esta participação, já que é livre e sem obrigação de horários completos. A presença dos voluntários é uma forma de dar visibilidade ao projeto, esclarecer os clientes sobre o trabalho da AMI e a parceria com a FNAC e, porque não dizê-lo, um incentivo à participação ativa de mais pessoas em ações de voluntariado.

É um trabalho que os voluntários fazem com prazer porque sabem que estão a contribuir para a felicidade de quem recebe os presentes e de quem beneficia desta parceria.

 

Algum episódio ou situação que queria partilhar?

Foi particularmente grato para mim, num dos dias em que participei, ter-me encontrado com a diretora-geral da FNAC, Dra. Claúdia Almeida e Silva, que se mostrou agradavelmente surpreendida pela participação direta, de "mãos na massa" de um elemento do Conselho de Administração da AMI. Percebi que não estava de todo à espera de me encontrar atrás do balcão a fazer embrulhos no dia 24 de Dezembro!

 

Qual a importância desta iniciativa para a AMI?

É dos exemplos mais paradigmáticos da verdadeira responsabilidade social. Construir um projeto de raiz em total sintonia, sem imposições de nenhuma das partes, procurando sempre melhorar, implicando pessoas e apelando ao voluntariado. Para além disso, graças à excelente imagem e notoriedade da FNAC, com perto de duas dezenas de lojas espalhadas pelo país, permite uma projeção e visibilidade muito grande do trabalho da AMI

 

Quem quiser participar como voluntário o que terá de fazer?

Basta aceder ao site da AMI em ami.org.pt, inscrever-se como voluntário e enviar um e-mail para voluntariado@ami.org.pt  Quanto mais participações tivermos maior será visibilidade do projeto. O nosso objetivo para este ano é chegar às cinco mil horas de voluntariado para permitir alavancar pelo menos 30 mil euros a favor da luta contra a pobreza.



publicado por AMI às 11:32
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014
AMI vai apoiar refugiados no Curdistão Iraquiano

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Agora que acabou de celebrar 30 anos e no dia em que de celebra o Dia Internacional dos Direitos Humanos, a AMI vai estender o seu trabalho de apoio humanitário a uma das regiões mais problemáticas do globo, num esforço de minorar o sofrimento das vítimas do mais recente movimento de migrações internas no Médio Oriente.

 

Depois de visitar vários campos de refugiados no Curdistão iraquiano, a AMI decidiu juntar-se ao esforço internacional de apoio humanitário aos cerca de 1,5 milhões de pessoas que vivem em condições precárias naquela região desde que, no princípio de agosto, a expansão agressiva do Estado Islâmico do Iraque e do Levante levou a êxodos maciços de curdos iraquianos e sírios.

 

Na missão exploratória, Fernando Nobre visitou 3 campos na região de Erbil: o campo de Harsham, com cerca de 1400 pessoas, o campo de Bahrka (3000 pessoas) e de Kushtapa (que alberga 6000 pessoas). Já na zona de Dohuk, foram visitados 2 campos. O de Sharya, com 24 mil pessoas e o de Khank com 30 mil pessoas.  

 

Face às mais imediatas necessidades desta imensa população de refugiados e deslocados internos, o frio e as deficientes condições de salubridade, a AMI vai apoiar os campos de Harsham, Sharya e Khank. No primeiro destes campos, será estabelecida uma parceria com a ONG Qandil para a um projeto sanitário orçado em 25 mil euros e, nos dois últimos, o apoio será dado através da compra e distribuição de cerca de 4000 cobertores para as famílias mais vulneráveis destes campos.

 

Fotografia: Alfredo Cunha


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014
30 Anos a Acreditar no Futuro

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Falar dos 30 Anos da AMI é antes de mais relembrar uma utopia, um ideal que se afirmou e se concretizou na ajuda de milhões de pessoas em todos os continentes e na salvaguarda de centenas de milhares de vidas em situações de extrema urgência.

Mas falar dos 30 Anos da AMI é, sem descurar o nosso digno passado, sobretudo olhar para os desafios (pobreza/exclusão, alterações climáticas, migrações / guerras) que se vislumbram, e para as esperanças (sociedade civil, cidadania) que nos animam e nos estimulam.

 

O mundo mudou rapidamente e irreversivelmente nestes últimos 30 anos. A terceira revolução mundial em curso, no espaço de uma única geração, não tem retorno possível. Cabe-nos a nós adaptarmo-nos, inovando, sem nunca, jamais, abdicarmos dos valores humanos universais, sem os quais não haverá Humanidade mas sim Barbárie e Caos! O Desemprego, as Migrações, as Alterações Climáticas, os Conflitos regionais e globais, a escassez de Água e a Fome serão as maiores ameaças!

O nosso passado de sensibilidade, adaptação, inovação e ação será o estímulo decisivo para a nossa missão no futuro.

Nesse percurso de 30 anos quantos obstáculos ultrapassámos, quantas montanhas subimos, quantas fortalezas de egoísmo e de indiferença vencemos? Muitos!

Pois bem, é isso mesmo que vamos continuar a fazer com determinação.

Como? Inovando e adaptando permanentemente as nossas atividades e respostas nas áreas da saúde, ação social e educação, proteção ambiental e Direitos Humanos…

 

1) Na área internacional, (ação em saúde, social, ambiental e cívica) privilegiando cada vez mais a nossa atuação em parceria com instituições locais, certos de que será uma importante estratégia no fortalecimento da Cooperação para o Desenvolvimento [prevendo a continuação ou criação de novas parcerias de PIPOL (Projetos Internacionais em Parceria com Organizações Locais)] e promovendo, também, a integração de voluntários. Já temos uma rede global de parcerias mas vamos estendê-la ao limite último das nossas capacidades em várias áreas, designadamente, a saúde, a ação social, a ação ambiental e a sensibilização. Assim se justifica a nossa extensão recente a novos países tais como Madagáscar, México, Nicarágua, Índia, Iraque, Chile, Gana…

Mas na área internacional manteremos e reforçaremos, ainda, a nossa capacidade de intervenção imediata nas grandes catástrofes humanas, sobretudo climáticas, que se avizinham … Uma tónica especial será dada, também, às questões da água, saneamento, alimentação e proteção ambiental, não descurando a importância das ações de sensibilização e de alertar consciências, uma vez que a participação da sociedade civil é fundamental para promover a mudança de atitudes e comportamentos.

 

2) Na área nacional (ação em saúde, social, ambiental e cívica), atuaremos com toda a nossa rede social nacional mas, perante a vasta pobreza estrutural existente, (cerca de 40-45% dos portugueses), iremos privilegiar a abordagem holística dos problemas das famílias.

Manteremos pois a vertente assistencial direta, que nos últimos anos se tornou necessária (há fome em Portugal!), mas olharemos com a máxima atenção para a investigação ligada ao nosso fundo marinho e ao estímulo na criação de emprego. Sobreviver não é maneira de viver!!

Continuaremos, também, com todas as nossas atividades de reciclagem e reutilização em curso, mas fortalecendo a reflorestação ligada ao nosso projeto Ecoética e dando um novo impulso às energias renováveis e à proteção ambiental.

Cientes também da necessidade do reforço da Cidadania e da Sociedade Civil Global Solidária, o nosso empenho e determinação irão fortemente em crescendo pois, mais do que qualquer outra ação, é aqui que se trava a luta essencial para o futuro e para a sobrevivência da civilização humana.

Meus amigos, a tarefa é pois imensa, mas não há tempo a perder. Estamos numa situação de enorme urgência global humanitária, social, económica, política e ambiental, mas sobretudo de valores e de Ética, que serão in fine, a última garantia de sobrevivência civilizacional!

A AMI irá dar o seu contributo nesse combate em nome de um passado que nos honra e em nome de um futuro que nos ordena!

Com a AMI estou pronto e decidido a não recuar, a não ceder. Venham comigo!

 

Em nome da Humanidade e dos valores que foram sempre os nossos, estamos cada vez mais empenhados no fortalecimento da Cidadania Global Solidária informada, ativa, participativa e exigente como única solução que resta à Humanidade: Educação, Ética, Exemplaridade. Eis as pontes a construir e a fortalecer urgentemente!

Estamos preparados para enfrentar os próximos 30 anos e construir um Futuro melhor e sobretudo mais Humano. Estaremos prontos! Viva a AMI e todos aqueles que acreditaram e acreditam, contra ventos e marés, e que nunca perderam a Esperança!

 

Prof. Dr. Fernando Nobre, Fundador e Presidente da AMI.



publicado por AMI às 10:58
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014
AMI celebra três décadas

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Criada a 5 de dezembro de 1984 por Fernando Nobre, a AMI celebra esta sexta-feira trinta anos. E fá-lo-á, mais do que mostrando o seu histórico de atividades em Portugal e no Mundo, apontando caminhos para o futuro, num programa muito completo e diversificado que se prolongará até finais de 2015. Estão agendadas para os próximos meses iniciativas que pretendem, por um lado assinalar a data, por outro alertar consciências para “as duas doenças mais graves da humanidade: a intolerância e a indiferença”.

Ao longo do ano, a AMI pretende ainda preparar-se para lançar novos projetos que poderão ir da atribuição de bolsas de estudo, ao empreendedorismo social ou ao apoio de propostas criativas no lançamento de microempresas.

Para o fundador, “pobreza, alterações climáticas, migrações e guerras são os grandes desafios que teremos de enfrentar”.

Em três décadas de existência, a AMI diversificou a sua atuação, impulsionada por uma participação cada vez mais ativa, adaptando-se à evolução da sociedade e procurando uma intervenção coerente e harmoniosa. Foram trinta anos de luta contra a intolerância e contra a indiferença, a acreditar num futuro diferente e melhor. Trinta anos de sonhos, trinta anos de perseverança, de muitos projetos concretizados e muitos por concretizar.

Aquando da sua fundação, o propósito da AMI era claramente, a intervenção a nível internacional e na área da saúde, tendo a sua primeira missão decorrido na Guiné-Bissau, em 1987.

Em 1994, e depois de levar a presença humanitária portuguesa aos quatro cantos do mundo, a AMI decidiu, perante o empobrecimento acentuado de parte da população do Mundo Ocidental, intervir em território nacional e estender a sua atuação à área social, com a abertura do primeiro Centro Porta Amiga.

Com a sua preocupação de independência e sensibilização da sociedade civil, a AMI foi pioneira no desenvolvimento de projetos de sustentabilidade, dos quais se destaca, a Campanha de Reciclagem de Radiografias lançada em 1996. O êxito desta ação dedicada às preocupações ambientais levantadas a nível mundial na Cimeira do Rio em 1992, conduziram ao natural alargamento da sua ação à área ambiental, em 2004. PT200905_027.JPG

Mas este percurso não foi isolado, tendo-se fomentado a criação de parcerias e a participação ativa de voluntários e doadores; com todos eles, foi possível ajudar a construir futuros, influenciar percursos.

 É objetivo da AMI continuar a ser agente de mudança, acreditando que é capaz de juntar vontades. Para isso, está fortemente apostada em apelar a uma sociedade civil ativa, exigente, participativa e justa, capaz de olhar para o Ser Humano como o centro das suas preocupações.

Para Fernando Nobre, “a AMI está empenhada no fortalecimento da cidadania global solidária enquanto pilar fundamental na construção de uma humanidade mais justa, equitativa e pacífica. Falar dos 30 anos da AMI é antes de mais falar de uma utopia. Que seria do nosso mundo sem utopias nem gente solidária, interventiva e corajosa?"


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publicado por AMI às 10:40
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2014
Este País Não é Para Novos

01 Este país não é para novos - Alfredo Cunha.j

01 Este país não é para novos - Alfredo Cunha.j

 

No dia Mundial da População, 11 de julho, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou publicamente uma interessante análise da população em Portugal. Este documento revelou alguns dados preocupantes que antecipam de forma muito clara novos desafios para as Organizações Não Governamentais (ONG) que trabalham com idosos, para os governantes e sociedade em geral. Segundo o INE, “associada ao decréscimo populacional é expectável que nos próximos anos se aprofundem as alterações da estrutura etária da população em resultado da combinação do decréscimo da população jovem e do aumento da população idosa, com o agravamento do envelhecimento populacional”. Ou seja, Portugal será um país com menos população e mais envelhecido. Das 10,5 milhões de pessoas residentes em Portugal no ano passado passaremos para apenas 8,6 milhões em 2060. A tendência mundial é precisamente a inversa. O nosso planeta nunca cresceu tanto em termos populacionais. A população prepara-se para bater novos recordes. A Divisão de População das Nações Unidas aponta como cenário provável passarmos dos 7,2 mil milhões, em 2013, para 9,6 mil milhões em 2050.

Voltando a Portugal, o índice de envelhecimento apresenta um crescimento imparável: em 2001 tínhamos 100 jovens por 102 idosos, no ano passado os idosos passaram para 136 e em 2060 atingirão o valor de 300 por cada 100 jovens. Os maiores de 65 anos serão 35% da população total, enquanto, no sentido inverso, a população com menos de 15 anos diminuirá até 12%. O cenário baixo, mais pessimista, aponta mesmo valores ainda mais preocupantes, um Portugal com 43% de idosos e apenas 9% de crianças com menos de 15 anos.

Estes dados antecipam um futuro com novos desafios na área do apoio social aos idosos. Com acentuado envelhecimento populacional, será expectável assistirmos a um crescimento de situações de solidão e isolamento, necessidades dramáticas de cuidados continuados e especiais que poderão ficar sem resposta.

02 - Este país nao é para novos - Alfredo Cunha.

 

Se atualmente encontrar uma cama num lar com condições dignas e a um valor acessível é uma tarefa hercúlea, quase impossível para a grande maioria da população, num futuro próximo será um luxo apenas acessível a uma minoria de fartos recursos económicos. Poderemos mesmo assistir a um aumento exponencial de exclusão social de pessoas idosas e necessitadas de cuidados médicos. É provável que nas próximas décadas a procura de lares, apoios domiciliários e outros serviços seja bastante superior à oferta o que inflacionará os preços para valores próximos do absurdo. Por outro lado, observa-se uma fuga de enfermeiros sem precedente e a uma carência de médicos e voluntários, enquanto se multiplicam os seguros e soluções de saúde privadas para quem tem possibilidades.

É imperativo que as instituições de apoio social aos mais idosos comecem já a concertar esforços, construir infraestruturas, desenvolver parcerias, sob pena de Portugal vir a enfrentar uma tragédia nunca vista ao nível dos cuidados com idosos. A melhor forma dos jovens e adultos prepararem hoje o seu próprio futuro é tratarem desde já dos idosos como o carinho, respeito e dignidade a que têm direito.

Há mais de duas décadas que a AMI tem vindo a apoiar a população sénior. Primeiro nos centros Porta Amiga, depois com o Apoio Domiciliário e finalmente através de diversas atividades formativas e lúdicas como os Espaços de Prevenção à Exclusão Social.

 

Fotografias: Alfredo Cunha

 

 



publicado por AMI às 15:43
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014
Crises esquecidas: O papel das ONG

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 A crise financeira que faz tremer o mundo, e a Europa de forma particular, desde 2008, teve como efeito colateral que o único tema mediático tenha passado a ser as finanças públicas. Mesmo os subtemas associados: economia; desemprego; pobreza, passaram para um plano secundário.

Temas como o ambiente, que deveriam ser intemporais, sobretudo pelo impacto que têm na saúde pública, ficaram a viver na sombra. Os últimos 6 anos foram, por este motivo, de enorme oportunismo para indústrias e governos que desenvolvem atividades destrutivas em termos ambientais. Em alguns casos, a crise financeira foi mesmo instrumentalizada no sentido de justificar investimentos que em outros períodos teriam sido alvo de enorme contestação. Em nome da criação de riqueza, quase tudo foi permitido.

As ONG foram talvez a única força capaz de travar, ou pelo menos desacelerar, o sentido orquestrado pela macro finança global, em conluio com estados corruptos de países subdesenvolvidos e com estados falidos de países desenvolvidos. E fizeram-no bem. A eficácia das ONG globais melhorou com a sua profissionalização e com a aposta ganha na promoção da cidadania ativa. Hoje, as maiores ONG do mundo são forças de poder, também financeiro mas sobretudo mediático, capazes de desafiar e enfrentar corporações e estados. Com ordens de grandeza de milhões de cidadãos subscritores e de milhares de milhões de euros de orçamento anual, são hoje talvez a última fonte de esperança de que o mundo venha a ser um dia um lugar vocacionado para quem o habita: os cidadãos.

 

Luís Lucas, Diretor do Departamento de Ambiente.


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publicado por AMI às 16:08
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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014
19ª Campanha de Reciclagem de Radiografias arranca amanhã

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A AMI lança amanhã, 11 de Novembro, a 19ª Campanha de Reciclagem de Radiografias. Até ao dia 2 de Dezembro, vai ser possível entregar nas farmácias do país, as radiografias com mais de cinco anos ou sem valor de diagnóstico.

As radiografias serão posteriormente recicladas, evitando-se assim o seu envio para o lixo. A venda da prata extraída permitirá à AMI gerar financiamento para fazer face ao constante aumento dos pedidos de apoio social.

Este projeto permite angariar fundos equivalentes ao financiamento de um centro social da AMI para apoio aos mais desfavorecidos. No ano passado, foi possível duplicar este valor graças à entrega de radiografias por parte de hospitais e centros de saúde de todo o país.

Este ano, a AMI volta a apostar nesta iniciativa como uma das suas fontes de angariação estratégicas, demonstrando que, independentemente das dificuldades financeiras de cada um, todos podem contribuir sem custo.



publicado por AMI às 15:02
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