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AMI - Age, Muda, Integra

Diário de Missão - Haiti por Tânia Barbosa

13 de Janeiro Ao longo do dia recolhemos a informação possível sobre o sismo no Haiti. Decide-se avançar em missão exploratória: a colega Marta Andrade e eu corremos para casa. Vamos fazer as malas. Partimos na manhã seguinte.

 

14 de Janeiro Primeira escala: Madrid. O voo Miami/Port-au-Prince é cancelado. Vamos pela República Dominicana.

 

15 de Janeiro À chegada a Santo Domingo, uma equipa da ONU, que juntamente com uma ONG inglesa, tinha começado a coordenar a ajuda humanitária internacional, pede para não avançarmos para o Haiti por razões de segurança. À noite, aceitam-nos num voo da Força Aérea Espanhola. Voamos durante três horas, com duas tentativas de aterragem na capital haitiana. A autorização não chega. Estamos a ficar sem combustível. Somos forçados a regressar. Nessa noite, dormimos três horas no terminal do aeroporto.

 

16 de Janeiro - Às seis da manhã vamos partir em comboio humanitário. O ponto de encontro é algures em Santo Domingo. Dezenas de humanitários aguardam a chegada dos dois autocarros que nos irão levar para o Haiti. O comboio humanitário demora cerca de seis horas a chegar à fronteira de Jimani. Pelo caminho compramos

água e alimentos. Somos levadas para um campo improvisado reservado às organizações humanitárias. Acampamos numa zona de terra batida. À noite, participo numa reunião de coordenação liderada pela Defesa Civil Dominicana. A informação passada é de que o acesso ao Haiti é muito perigoso. Estão a condicionar a entrada, dando prioridade às equipas de busca e resgate.

 

17 de Janeiro - Partimos finalmente no comboio humanitário. São 14h00. Já no caminho e apesar do alerta da importância das escoltas, apercebemo-nos que não temos esse luxo. Mais…somos os primeiros da fila! Não há nada a fazer! A minha colega e eu e olhamos uma para a outra e esperamos que tudo corra bem. Largam-nos na capital, num campo improvisado junto ao aeroporto em que estão acampadas as equipas internacionais de resgate. Não há comunicações. Só graças a SMS trocados com a sede em Lisboa conseguimos informar da nossa localização. Horas depois, a cônsul honorária de Portugal no Haiti e o Conselheiro da Embaixada de Portugal em Cuba vêm ao nosso encontro. As horas seguintes são dedicadas a preparar a aterragem do C-130 da Força Aérea Portuguesa, ainda incerta. À chegada do avião, o grupo fica ainda algumas horas no aeroporto, enquanto se resolvem burocracias. É já tarde… Uma vez mais, o terminal do aeroporto é o recurso possível para descansar um pouco. Por volta da uma da manhã partimos para o acampamento, num camião da ONU. As primeiras tendas são montadas.

 

18 de Janeiro Finalmente lançamos mãos à obra! A equipa AMI divide-se. A primeira vai à cidade e a dois hospitais para definir locais de intervenção imediata. O primeiro é o hospital gerido pela Universidade de Miami na própria base logística da ONU; o outro, o Hospital da Comunidade Haitiana está a funcionar bem, com equipas estrangeiras suficientes. A segunda equipa vai às reuniões do cluster da saúde. Nestes contextos de emergência, a comunidade internacional coordena a ajuda externa, organiza reuniões diárias com os vários actores para discutir e planear as intervenções

por áreas: saúde, água e saneamento básico, abrigo, etc.

 

19 de Janeiro – Continuamos o reconhecimento por Port-au-Prince. Vamos às instalações da ONG parceira da AMI: a APROSIFA. Com receio de que o edifício possa colapsar, estão a dar consultas no pátio. Nesse mesmo dia, as equipas médicas da AMI e do INEM iniciam as primeiras consultas no Hospital da Universidade de Miami.

 

20 de Janeiro A terra voltou a tremer, por volta das seis da manhã (sismo de 6.1 na escala de Richter). Estamos nas tendas. Sentimos o abalo. Mais tarde, soubemos que houve 17 vítimas mortais.

 

21 de Janeiro Visita ao Hospital do Sagrado Coração. No pátio, um reboliço de pessoas, entre técnicos de saúde que correm atarefados, doentes, dezenas de tendas montadas no exterior para internar os pacientes. Uma vez mais, o medo que o edifício ruísse levou muita gente para a rua. Num pátio interior, dentro do edifício principal, estão montadas marquesas onde os doentes são operados de emergência. Procuro a coordenadora. Uma médica norte-americana de Miami. Simpática, mas sem tempo. Agarra-me a mão e leva-me com ela, enquanto continua a visita aos doentes. Explico apressadamente que tenho uma equipa médica pronta a intervir. No dia seguinte,  estamos lá a trabalhar.

 

22 de Janeiro A equipa médica da AMI divide-se entre dois hospitais: Hospital do Sagrado Coração e Hospital da Universidade de Miami. Em simultâneo, o campo da missão portuguesa dá os primeiros passos. O local escolhido: campo de futebol em Delmas 33, onde várias famílias já estão alojadas.

 

23 e 24 de Janeiro Continuamos a intervenção médica. Visito o campo em Delmas. Acolhe 615 desalojados ou cuja habitação está em risco de ruir. À noite, acabam por dormir lá mais de um milhar de pessoas. O local foi considerado adequado para montar as tendas da Protecção Civil Portuguesa. No entanto, há alguns trabalhos a fazer no terreno para assegurar a drenagem das águas. Até ao momento, há apenas uma latrina feita pela população. Os duches são a céu aberto, quando há água. A organização Pure Water instalou dois filtros de água. A população recebe algumas ajudas esporádicas de medicamentos e comida. No campo, há já um comité de gestão, composto por homens das várias famílias lá alojadas. É com eles que vamos coordenar a intervenção. Conversamos também com a população para perceber as necessidades: tendas e latrinas, dizem-nos de imediato. As crianças precisam de água, fraldas e alimentos.

 

25 a 28 de Janeiro A equipa médica continua a operar nos hospitais indicados. No campo de deslocados, começaram a ser montadas as tendas para alojar as famílias. À volta desta distribuição, gera-se uma discussão natural. Aparecem pessoas de outras zonas que também querem ajuda. É montada a tenda médica para a AMI. Para além das tendas, são instalados dois depósitos de água com capacidade para 10 mil litros cada, 30 latrinas, rede de drenagem pluvial e eléctrica. O campo é ainda equipado com duches, uma estação de purificação de água e um posto de assistência médica.

A missão portuguesa está orgulhosa!

 

29 de Janeiro Chegou o grande dia da inauguração do campo português. O campo Potigal Inyon Kan Ble Dayiti (Campo Azul União Portugal Haiti), como a população local o baptizou em crioulo. O dia é de festa. Realizamos um jogo de futebol: Haiti-Portugal. Após algumas emoções fortes, acaba com um empate justo.

 

30 de Janeiro – Chega a hora da minha partida. Embarco no avião que traz de volta a missão oficial portuguesa. Tenho saudades de casa, mas parto com a sensação de missão cumprida. Aquele país precisa de ajuda. Temos de dar o nosso contributo.

No terreno, fica a equipa AMI. Nas próximas semanas, espera-se um grande desafio: gerir o campo e assegurar que as pessoas que em nós confiam tenham acesso a bens e serviços básicos: água e saneamento, alimentação e saúde. Para um futuro próximo, um grande receio, a época das chuvas vai começar em Abril e com ela o Haiti pode voltar a ser fustigado. A resposta é não perenizar os campos e começar rapidamente a reconstrução e relançamento da economia. E é nessa área que a AMI se irá empenhar.