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AMI - Age, Muda, Integra

Nepal é o destino do 24º Peditório da AMI

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O Nepal é o destino do 24º Peditório da AMI. A angariação de fundos realiza-se, em Portugal continental e Açores, nos próximos dias 7 a 10 de Maio. Perante a dimensão da catástrofe a AMI decidiu desenvolver projetos de emergência dedicando até 200 mil euros ao apoio das vítimas do terramoto.

 

Atualmente, a AMI tem no terreno dois elementos da ONG indiana Friend's Society, parceira de longa data, a realizarem um levantamento de necessidades. Água, alimentos, medicamentos e abrigos são as prioridades imediatas que se fazem sentir localmente.

 

Em Portugal, a partir do próximo dia 7, centenas de voluntários e colaboradores da AMI irão apelar à solidariedade da sociedade civil tendo-se decidido que este Peditório irá financiar esta Missão de Urgência.

 

Pode ainda ajudar a população nepalesa com efetuando o seu donativo online em: http://donativo.ami.org.pt ; através do NIB 000700150040000000672, IBAN PT50 0007.0015.00400000006.72, se mora no estrangeiro ou ainda do serviço “Ser Solidário” no Multibanco, selecionando: Transferências> Ser Solidário> AMI.

 

A AMI relembra ainda que o Peditório realiza-se na rua e em espaços comerciais por voluntários credenciados, não sendo permitido qualquer pedido “porta a porta”.

NEPAL: AMI apoia vítimas do terramoto

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A Fundação AMI decidiu apoiar com uma verba até 200 mil euros as vítimas do terramoto no Nepal. Esta ajuda será disponibilizada à população mais atingida pela catástrofe, através das parcerias que a AMI mantém há anos com várias ONGs locais do Nepal e países circundantes (Índia, Bangladesh, Paquistão e China) cuja informação, rapidez e credibilidade de atuação são reconhecidas pela AMI.

Nas últimas horas, a AMI tem desenvolvido intensos contactos com estes seus parceiros. Neste momento, a ONG indiana, Friend's Society, parceira da AMI desde 1990, já tem dois elementos no terreno a realizarem um levantamento de necessidades nas áreas de água e saneamento, abrigo e alimentação;

Para ajudar a população nepalesa através da AMI é possível fazer um donativo online em: http://donativo.ami.org.pt ; através do NIB 000700150040000000672 ou ainda do serviço “Ser Solidário” no Multibanco, selecionando: Transferências> Ser Solidário> AMI.

Guiné-Bissau: AMI amplia escola primária

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A AMI está a ampliar a escola primária em Wato, na Guiné-Bissau. O estabelecimento de ensino erguido pela AMI em 2009 está a crescer, conhecendo mais duas salas de aula com capacidade para acolher diariamente uma centena de crianças. A escola que recebe alunos do 1º ao 6º ano verá estes trabalhos de ampliação concluídos no final deste mês.

 

Este projeto de promoção da educação conta com o financiamento do torneio de golfe solidário a realizar-se no dia 28 de março no Vidago Palace Hotel, da Aventura Solidária AMI , que parte para a Guiné-Bissau no dia 24 de abril, e ainda da empresa portuguesa Origama.

 

Pode colaborar e financiar as obras nesta escola através da plataforma donativo.ami.org.pt

 

BRASIL: AMI alarga intervenção no Rio de Janeiro e Milagres

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A AMI vai reforçar o apoio a duas ONG brasileiras (Metamorfose e ACOM), financiando projetos sociais no Rio de Janeiro e em Milagres, respetivamente. São as duas faces do Brasil, rural e urbano, que, após a missão de avaliação realizada entre os dias 23 de fevereiro e 3 de março, verão alargado o apoio humanitário oferecido pela AMI.

 

No Rio de Janeiro, a ONG Metamorfose desenvolve um importante e árduo trabalho de sensibilização social junto da comunidade infanto-juvenil da favela de Xerem. Problemáticas de toxicodependência e prostituição são o contexto comum no qual se encontra grande parte desta população. A organização brasileira desloca-se a três áreas desta favela, apoiando localmente mais de três dezenas de jovens que pretendam dar um novo rumo às suas vidas.

 

Rural e urbano: as duas faces do Brasil contemporâneo

A AMI nesta missão desafiou os responsáveis da Metamorfose  a replicarem o prémio “Linka-te aos Outros”, colocando à disposição o regulamento desta iniciativa e os fundos necessários para a realização de projetos nascidos e implementados pela comunidade escolar.  Paralelamente, existem ainda duas ações que podem concretizar-se no decorrer deste ano. Uma primeira ligada ao apadrinhamento de crianças em idade escolar que necessitem de apoio nas despesas de educação e, finalmente, um projeto denominado “Meninas Esperança” dirigido a raparigas toxicodependentes. Nesta missão de avaliação, a AMI revelou abertura em apoiar estes projetos, ajudando esta ONG a mudar a vida destes jovens e crianças rumo a um futuro mais digno e feliz.

"Temos em curso um projeto ainda mais ambicioso. Trata-se de dotar a comunidade de água potável através de uma rede canalizada com ligação direta a dois reservatórios com 10 mil litros cada."

Já no nordeste brasileiro, a AMI continuará a apostar no desenvolvimento da comunidade de Genipapeiro II. Situada a 10 quilómetros de Milagres, esta aldeia recebeu os aventureiros solidários da AMI que construíram uma vedação de proteção dos terrenos agrícolas. Esta obra permitiu desde logo desenvolver hortas comunitárias, não só para consumo próprio, como também para venda, criando assim uma dinâmica de sustentabilidade.

 

Atualmente, temos em curso um projeto ainda mais ambicioso. Trata-se de dotar a comunidade de água potável através de uma rede canalizada com ligação direta a dois reservatórios com 10 mil litros cada. A iniciativa está a ser um sucesso e será alargada das atuais 10 para 40 famílias.

 

Paralelamente, o projeto das hortas comunitárias continua a desenvolver-se a bom ritmo, sendo expetável a criação de uma cultura específica de plantas medicinais, tendo em vista a resolução médica de alguns problemas de saúde, contornando assim a inexistência de uma farmácia.

 

Encontra-se ainda em estudo, o desenvolvimento de atividades na área da pecuária, dotando assim a comunidade de maior autossuficiência alimentar e robustez financeira ao vender os excedentes.

Colômbia: "Trabalhar aqui pressupõe adaptação"

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"Parti para esta missão em terras colombianas para trabalhar com a Fundación Hogar Juvenil. Quando cheguei trazia um olhar atento e curioso que me foi mostrando este povo maravilhoso que me surpreende diariamente.

Fui integrada no departamento de Saúde e Nutrição composto por uma auxiliar de enfermeira e uma nutricionista.

O projeto que estamos a implementar “Un Barullo por la Nutrición de la Primera Infancia” implica trabalhar e ajudar 300 crianças e respetivas famílias, de forma a prevenir, valorizar e recuperar a sua capacidade nutricional. Neste sentido, desenvolvi um processo de avaliação e registo de Consultas de Enfermagem de acordo com os parâmetros avaliados na 1ª infância. Até ao momento os resultados têm sido positivos, permitindo atuar no momento e, prevenir problemas maiores no futuro.   

Nesta segunda-feira, dia 2 de Março, vão começar as aulas que decorem das oito da manhã até as 16 horas. As crianças fazem três refeições na Fundação. Posto isto, iremos desenvolver um conjunto de educações para a saúde com os docentes da Instituição, as crianças e os pais. Estas terão em conta às necessidades encontradas na população, tais como: Nutrição; Prevenção de Acidentes domésticos; Doenças da 1ª Infância; Higiene Pessoal; Saúde Oral; Saber como educar; Primeiros Auxílios, entre outras.

Confesso que vim para a Colômbia com ritmo acelerado e com a vontade e uma força enormes de fazer tudo para "ontem". Aos poucos, fui aprendendo que os ritmos são diferentes, assim como os costumes e o próprio dia-a-dia.

Gradualmente fui-me sentindo em casa neste país desconhecido que me acolheu de braços abertos ao som da Salsa e da Champeta.

Os rostos encontrados, nos percursos feitos diariamente, tornam-se familiares. Um tímido bom dia, antes dito, transforma-se num cumprimento cheio de alegria de alguém que, hoje, encontra um amigo.

Aquele olhar atento e curioso, inicial, transforma-se num olhar, que apesar de continuar constantemente atento e curioso, está mais familiarizado com o que o rodeia.

Trabalhar aqui pressupõe adaptação ao novo meio. Adaptar não significa esquecer o que somos nem a experiência que temos. Pressupõe um equilíbrio entre o conhecido e o que estamos a conhecer.

É preciso compreender que vivo numa sociedade diferente, com um ritmo próprio, com as pessoas e formas de trabalhar distintas. Diferente não significa ineficiente. O fruto sai da fusão entre o melhor de cada mundo.

Os dias na Colômbia são um desafio constante. É descobrir limites e reinventar novos. Obriga-me a ser mais criativa, compreensiva, tolerante e espontânea. No fundo, menos automatizada, menos individualista. Mais Humana. Sigo com o trabalho por cá, com o propósito de honrar a camisola que visto."

 

 Enfermeira Margarida Marques.

É apenas uma aldeia de escravos

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Texto: Luís Pedro Nunes | Fotografias: Alfredo Cunha

 

Podemo-nos comover com uma fotografia aí sentados em casa. Já aconteceu. É tremendo o poder de uma imagem. Mas quando temos uma agenda apertada de situações humanitárias limite num país que está em último lugar no índice de Desenvolvimento Humano, o cérebro começa a arranjar defesas e a ficar dormente. Estamos ali nos locais e vamos banalizando a miséria no seu estado puro.

Estamos na República do Níger há cinco dias e somos uns privilegiados. Normalmente já teríamos sido detidos e recambiados. Pouca gente sabe sequer o que é o Níger. Quando dizemos que estivemos lá pensam que estamos a falar da Nigéria que é outro país que faz fronteira – esse sim conhecido e nas notícias. Níger – ex-colónia francesa, 16 milhões de habitantes, 2/3 é deserto. A norte tem a Líbia e a Argélia. A sul, a Nigéria e o Benim. A este, o Chade. E a oeste, o Mali e o Burkina Faso. Um pesadelo

em termos securitários e um pólo agregador das rotas de emigração para a Europa. Um dos países mais pobres do mundo. E dos mais esquecidos. Não tem guerra civil e lá tem conseguido evitar golpes de estado nos últimos anos. Tem uma ténue economia entregue parcialmente a chineses e recursos naturais como urânio, explorado pelos franceses, e a alma a ser encantada por um islão cada vez mais revoltado. Está algures perdido na África ocidental a ser devorados pelo deserto e pela miséria. E uma população que irá duplicar em menos de 20 anos. Termos ido na comitiva da AMI, ali em missão exploratória para parceiras humanitárias, concedeu-nos a possibilidade que não é dada a jornalistas há anos: a de ficar no país com o benefício da dúvida. E de sermos recebidos por ministros e pela primeira-dama e de ir ao terreno. E de termos feito bons amigos. Nessa manhã, já com um calor que na nossa perceção iria roçar os 50 graus (talvez sejam só 45 ou 46) estávamos pois a deixar Niamey, a capital, com escolta militar, passar as barreiras policiais na estrada e chegar a essa tal aldeia de escravos num local desolador que uma associação de direitos humanos locais, a Timidria, apontava como exemplo de sucesso na auto-determinação. Uma aldeia de escravos entre tantas. Esta tinha apoio.

Os jipes param. Chegámos a Gurti Korà. Os soldados posicionam- se porque sim. A aldeia corre para nós com os mais velhos à frente para nos cumprimentar efusivos, agarrando a nossa mão com as suas em concha, ou puxando ligeiramente o braço e segurando o antebraço como se quisessem evitar que ao fazer o cumprimento o nosso não se machucasse. Há sorrisos desdentados dos anciãos que mostram grande satisfação. Crianças, sempre elas, por aqui, por ali, por todo o lado, as mulheres a carregar bebés. Sempre. Afinal, a média de filhos por mulher é de sete. Sim, sete por mulher.

Visualmente é “apenas” mais uma aldeia. Uma aldeia que é um espaço desolado de cabanas. Talvez mais miserável e esmagada pelo sol no meio do nada numa terra de cor alaranjada do Sahel.

O dirigente da Timidria pede para reunir a aldeia debaixo da árvore mais frondosa para depois fazer a visita. Homens mais velhos nas cadeiras em meia lua, mulheres mais velhas no chão sentadas no centro (toca um telemóvel? É de uma delas? Há assim momentos absurdos nas pregas do absurdo). As mais novas de pé atrás. Crianças a zumbir por todo o lado. O chefe tem a seu lado o professor que irá traduzir do idioma local para francês. É suposto estarmos numa aldeia a que foi concedida, de alguma forma, a libertação, ao terem a proteção da associação que lhes arranjou as terras. Um pequeno exemplo de sucesso. É difícil explicar... Oficialmente não há escravatura no Níger desde 1960. É criminalizada desde 2003. E no entanto, aquelas pessoas que estão ali connosco não têm direitos. Existência jurídica. O professor primário tem que repetir várias vezes a tradução do chefe da aldeia (que não fala francês) até que o representante da Timidria – homem de coragem, um negro grande imponente licenciado na Sorbonne – perceba finalmente o que se passou. No chão, sentadas nos panos, as velhas acenam com a cabeça e murmuram em concordância. Já perderam tudo de novo. Não têm nada. Nem terras, nem poço de água. De repente, há um buraco que se abre para uma existência de outro tempo. E depois de estarmos lá dentro tudo faz sentido mesmo que seja como numarealidade paralela.

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 Esqueçamos o calor e a sede. Aqueles seres humanos que estão ali à nossa frente e que existem – já lhes tocámos, têm textura, pele e vida e estão a sofrer – são escravos. E não se trata de uma expressão. Pertencem, como uma cadeira ou uma vaca, a outros seres humanos. E são-no eles como foram os seus pais e avós há gerações e gerações. (Falámos todos depois sobre isso no ar condicionado do hotel: como o próprio modo de encarar é diferente, as cabeças e os queixos baixos que olham de um nível inferior para cima, os braços cruzados, uma aflitiva subserviência e acomodação que não reproduz a vilania do que o chefe está a relatar. Há um sismo dentro de nós naquele semideserto amarelado.)

É que vou explicar de novo. Há uma outra aldeia a uns quilómetros que é senhora e dona desta e bem como destes seres humanos. E que ainda vem buscar as mulheres para as levar e utilizar sexualmente. Mesmo que sejam casadas. É disto que falo quando digo que são escravos. E os homens tratam do gado e são tratados como gado. Não é um eufemismo. Mas o que se passou em Gurti Korà para estarmos ali debaixo da árvore e o ambiente estar pesado? É que houve um imbróglio qualquer, porque a Associação Timidria tinha arranjado maneira de eles terem uns dois hectares de terra e um poço de água. A tradução vai e vem entre complicações, pois também envolve más decisões do chefe que, por isso, deve estar a enrolar a história. Aparentemente na sua ambição de aldeia libertada terá votado num chefe maior de todas as aldeias que acabou perdedor. O que levou à ira do novo líder que unilateralmente obrigou à venda de terras e mandou tapar o poço. De repente, começamos a achar que faz sentido. Até há ironia. Dentro daquelas regras, uma aldeia “libertada” usou a sua liberdade para votar no líder errado e viu-se de novo na condição de escrava que nunca terá perdido para o outro. E as velhas acenam com a cabeça. Atrás de mim, um miúdo de dois anos encosta a ponta do nariz na minha nuca. Tem uma t-shirt verde com letras amarelas a dizer OBAMA. É uma marca de roupa local. “E vivem de quê?”, o chefe encolhe os ombros. De ajuda. Olho em redor e não vejo nada. Nem uma cabeça de gado. Nada. Não se consegue perceber. Não é para perceber. Cá dentro, as nossas estruturas começam a ceder. Se calhar pensamos que isto é apenas um caso. Não. É apenas um entre tantos. Contam-nos que tínhamos passado pelo que pensávamos ser apenas o centro de uma aldeia, mas é um caminho de areia que divide duas: de um lado a aldeia dos escravos; do outro a dos senhores. E não se misturam.

Os escravos são uma questão regional de todo o Sahel. Da Mauritânia ao Senegal, do Chade ao Sudão. E as autoridades do Níger, pelo menos neste momento, dizem estar abertas ao tema, para que deixe de ser tabu. Mas que tema é este? O que é um escravo? Não estamos a falar propriamente de um bem transacionável mas de um ente que nasce sem direitos. Há aqui um mundo de diferenças. E é-nos difícil porque queremos algo para nos situar. Serão como os “intocáveis” na Índia? Não mas... É uma questão cultural, que vem desde a tradição tuaregue e que agora tem vindo a ser ainda mais intensificada com a crescente islamização do país e a “norma da 5ª mulher” que é uma interpretação regional do Islão.

A escravatura está entranhada na sociedade do Níger, seja urbana ou rural e não só nas etnias tuaregues (que tem um complexo sistema de castas) e mauberes, sendo que a maioria dos casos de escravos vem perdida na árvore das gerações. Mas não se pense que chega ali e é algo que salta à vista. Podemos olhar e nada ver. Não há marcas nem sinais, grilhetas ou correntes. Apenas inexistência de direitos de ser um humano acomodado há gerações a este facto, sem hipótese de mudar. Fomos dar uma volta pela aldeia. O índice de natalidade nem é dos mais altos. Para 600 pessoas há 200 crianças. Duas das “salas” de aula são de palha e as crianças estão perfiladas, muito arranjadinhas, vestidinhas e compostas. São desafiadas a ler uma frase no quadro. Digo-vos que seria uma cena até inverosímil num telefilme americano de tão perfeita que saiu. A palhota no deserto, as crianças escravas, lindas e enternecedoras, a ler num tom suave e doce uma frase em francês carregada de “rrr”. O sol a entrar pelas frechas das canas do tecto, o silêncio delas, o ar submisso mas muito direito, a incapacidade de as “desmontar” para um estado de crianças naturais, a certeza de que elas já sabem que são “escravas”. Que idade tens? Não sabe. Ali sim, qualquer coisa bateu em todos nós. Bateu. Saímos diferentes lá de dentro. Tínhamos descido a um estado de compreensão e entendimento do abjecto e sem perder as nossas referências. Estávamos cá em baixo agarrados a um ponto de interrogação impotentes e derrotados. E chega a agitação da partida. Os cumprimentos a todos. Tanta alegria. A sensação de que dentro de minutos ali ficariam apenas uns rastos de jipes e o silêncio e o calor. Havia uma sensação de indignação misturada com uma raivazinha. Mas não sei se devemos ir por aí. Apenas o não querer esquecer aquele momento em que faltou o ar quando saímos da sala. É a diferença quando a realidade nos é descodificada. Dias antes, tínhamos estado num campo de deslocados que tem o patrocínio da primeira-dama Aissata Iossoufou Mahamadou. Trata-se de uma população que vivia numa pequena ilha no meio do Rio Níger que há dois anos foi devastada pelas cheias. Um dos dramas deste país, a juntar à bomba demográfica: as alterações ambientais, o avanço do deserto, a erosão, alterações do rio seguidas de períodos de seca.

Os habitantes da aldeia tiveram que ser mudados para uma zona a dois quilómetros da margem e só agora se está a tentar arranjar um terreno para que se consiga construir uma nova aldeia. Lá estivemos a ver e conversar. E mesmo sendo uma aldeia da Fundação Guri da primeira-dama, as condições são humanamente difíceis de descrever. Pedaços de tendas de ajuda humanitária cosidas a canas fazem de abrigo a centenas de pessoas. O folheto da Fundação não esconde a realidade do país: índice de fecundidade de 7,1, (a mais elevada do mundo) e uma taxa de crescimento anual da população de 3,3 o que faz uma pressão brutal sobre os recursos naturais e uma taxa de mortalidade infanto-juvenil de 130%, sendo que 65.9 vive abaixo do limiar da pobreza e as mulheres são 2/3 dos pobres. Está o retrato feito com números. Visitar esta aldeia já é de si uma experiência poderosa. Mas quem está habituado a fazer missões humanitárias em África sabe que esta é a realidade em muitos países. Demasiados mesmo. O que não sabia, e soube-o só depois, é que também esta era uma aldeia de escravos. E faltou este “filtro”. E entre ver uma aldeia de deslocados, de gente sem nada, num dos países mais pobres do mundo e perceber que é uma aldeia de gente sem nada num dos países mais pobres do mundo, mas de gente escrava – teria feito toda uma civilização de diferença. Nunca a palavra escravo foi mencionada.

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 O que queriam era saber como chegar ao rio e pescar. E ter de novo uma aldeia a que chamar sua. Devemos suspeitar do que vemos e como vemos. Mesmo o que vos conto é parte de parte de uma teia. Não se percebe uma mistura de culturas centenárias numa semana. Claro que a escravatura é um tema tabu para mostrar a olhos externos mesmo que se diga que não. Está tão enraizado na sociedade que só deve parecer estranho quando alguém de fora coloca o assunto para a mesa. E deve fazê-lo com cuidado. “Ter” escravos... Desconfiamos mesmo que deve ser banal mesmo nas classes mais altas. Nunca o saberemos. E a escravatura está escondida sob forma de matrimónio. É a chamada 5ª mulher e

que no fundo é o grande alimentador desse ciclo. E não vai ser qualquer ONG ou movimento externo ou grupo de pressão que irá alterar a situação. O Islão permite ter quatro mulheres, mas no Níger um homem pode ter mais, no que é conhecido pela 5ª esposa (que podem ser 5, 10, 15 ou mais... mas sempre conhecidas pela 5ª. É tudo uma questão de dinheiro). A questão é que não só não há casamento em si, como ela não obtém nenhum direito matrimonial sendo, no fundo, uma escrava não só do marido como das quatro mulheres legítimas. As relações domésticas acabam por ser mais complexas. A 5ª esposa é obviamente muito mais nova, não tem “dia fixo”, o que cria uma disrupção no equilíbrio estabelecido. É sabido que muitas das legítimas têm ciúmes, o que leva a abusos sobre as 5ªs mulheres. E ociclo da escravatura recomeça, dado que os filhos destas também não têm quaisquer direitos. E trata-se de uma distorção do Islão, pois é-lhes dito que é vontade de Alá que sejam escravos e só se obedecerem ao seu dono é que irão para o Paraíso quando o Corão diz precisamente que nenhum muçulmano tem poder para escravizar outro muçulmano. Mas esta é uma visão muito parcial de um povo e de um país. Podíamos ter estado dias sem fim na capital, Niamey, e vivido numa caótica “normalidade” de uma capital chocante de pobre. Trata-se de uma cidade de milhares de motas chinesas, carros que serpenteiam, sem regras e gente que sorri. Vêem-se milhares de sorrisos. Se o primeiro impacto é a cor da terra amarelada que se confunde com as paredes. O segundo é o lixo e o plástico que voam por todo o lado como parte das paisagens. O terceiro serão os sorrisos. Eu e o Alfredo fizemos a cidade de uma ponta a outra. Só com um motorista. Não tivemos um problema.

Há poderosas armas para usar: um sorriso e um “bonjour!” ou um “salam aleikum!”.

Mas entre a aldeia dos escravos e o turbilhão da cidade há camadas complexas de existência que só posso descrever. São o formigar colorido de pessoas nos mercados, a passar de um lado para o outro, a fazer pela vida e a conseguir passar mais um dia. De que vivem? Fazem biscates, desenrascam-se. O Alfredo avança a um ritmo acelerado a fotografar. É impressionante os milhares de telemóveis. A quantidade de cartões pré-pagos que se vendem na rua. Dizem que os chineses já dominam 50 por cento da economia e, contudo, nunca vimos um chinês. Só o mega-coumpound completamente fechado onde há hotéis de escritórios. E crianças. Em todo o lado. E como é que a maior parte delas tem uma camiseta de futebol? Os telemóveis são chineses. Há miúdos de telemóveis, mas são só a carcaça. Avançamos para uma lixeira perto do matadouro. É um fosso muito profundo no Inferno da parte mais que insanamente pobre da cidade. Plástico (sempre ele) a arder. Um burro, cabras, calor das chamas, uma criança no meio daquilo, um tipo tresloucado que me tenta vender um par de chinelos plásticos meio queimados, outro que parece avançar com uma barra de ferro para nós e passa ao lado. A estes, numa clínica ali ao lado em que estivemos, chamam os indigentes. Há gente curiosa. Um velho muçulmano não está a gostar que se esteja a fotografar aquilo. É natural. Nada nos foi propriamente escondido na capital da República do Níger. É bom que se perceba que isto é uma seleção do mau. Fomos ver o pior do pior.

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As urgências do hospital central onde as poças de sangue se acumulam no chão e cada um tem que trazer as talas para as suas fracturas (mesmo que seja um pedaço de papelão) ou um centro de mulheres com fistulas obstetrícias – grávidas que se rasgaram de dentro por não terem tido uma cesariana e que se vêem ostracizadas pelos maridos. Homens a curtir peles de cabra num cheiro nauseabundo ao calor da uma da tarde que posam, mas sabem que o Benfica joga nesse dia. É uma visão parcial. Podíamos ter ido ver as girafas e os hipopótamos e não fomos. Ou o trabalho de outras ONGs. Já fomos recebidos em países em que se vê o esforço para “compor” a chegada de uma delegação. Aqui nem haveria como. É o que é. O país sabe que é pobre. Um dos homens que nos recebeu também fez notar um pormenor: não temos muito para dar mas esmeramo-nos a receber bem. Foi verdade. Tanta cordialidade e cordialidade espontânea e não a descrevi aqui. Não há agressividade. A desconfiança inicial é esbatida no primeiro minuto. Os homens são imponentes, as mulheres graciosas as crianças lindas e, contudo, sabemos, eu sei, alguns de nós sabemos, que tudo vai piorar. Muito. Basta pensar que a população daquele país vai duplicar e então o que vai acontecer à Europa? Também fomos a jantares faustosos. Podíamos descrever mas seria demagogia. É África. Pessoas a querer receber bem. E fomos porque a diplomacia faz parte deste trabalho. Agora que leram e que deu para perceber que há uma realidade por baixo do que se vê e do pouco que se sabe, também que se perceba que diabolizar o Níger não vai resolver nada. Pelo contrário. Se há coisa que o Níger precisa é de uma mão e não de um punho cerrado ou um dedo apontado. E este texto é uma declaração de amor pelo Níger e por aquelas pessoas que vão buscar um sorriso a uma zona que, pelos vistos, a alma conserva sempre intacta.

Da viagem ao Níger resultaram três projetos da AMI em parceria com três organizações locais (PIPOL): a reabilitação da Clínica Gamkally e formação de profissionais de saúde, a construção de uma escola e um dispensário solicitadas pela Fundação Guri para a futura aldeia de pescadores deslocados. E juntamente com a associação Timidria a aquisição de um terreno para a futura construção de uma escola e de um poço para a aldeia de escravos de Gurti Korà.

Ébola - Falemos claro!

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 Foto: Alfredo Cunha

 

As origens do Ébola…

 

Foi em Yambuku, próximo do rio Ébola na República Democrática do Congo (RDC), então Zaire, que a 1 de setembro de 1976 foi identificado pela primeira vez o vírus do ébola e que em simultâneo surgia no país vizinho, Sudão.

Esta primeira epidemia de doença por vírus Ébola (então designada de febre hemorrágica por ébola) provocou 431 mortos em 602 casos, despertando a comunidade científica para uma nova ameaça para a saúde pública, com contornos francamente desconhecidos e com taxas de letalidade preocupantemente elevadas (88% no Zaire).

Este alarme inicial não despertou interesse político dos países de alto ou médio rendimento, uma vez que a doença estaria confinada aos países mais pobres, sem qualquer indício de que a doença se viria a propagar além-fronteiras. Foi assim relegado ao esquecimento, não se promovendo o mínimo esforço na investigação da doença e meios de tratamento adequados, por falta de rentabilidade do investimento necessário.

Foram identificados entretanto e até ao momento 5 subtipos do vírus ébola: Ébola ou (Zaire), Sudão, Bundibugyo, Reston e Taï Forest, sendo que os três primeiros e particularmente os subtipos Ébola (Zaire) e Sudão, são os que apresentam maior preocupação dado o seu historial epidémico, com elevada mortalidade associada.

A epidemia atual deve-se ao subtipo Ébola, o primeiro a ser identificado e que, desde a sua descoberta e sem contabilizar os dados da epidemia atual, já foi responsável segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), por 1445 casos dos quais resultaram 1086 mortes (letalidade de 75%). Segundo a mesma fonte, no dia 27 de outubro de 2014, a epidemia atual já ultrapassava toda a sua carga histórica, com notificações acima de 13676 casos, 4910 mortos, espalhados pela Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria. Outros países já notificaram casos, no entanto em quantidade reduzida e na sua maioria, casos importados (Nigéria, Senegal, EUA e Espanha).

 

A doença manteve-se relativamente desconhecida do público em geral até ao ano de 1995 quando, após nova epidemia no Zaire, com taxa de letalidade superior a 80% e responsável por pelo menos 254 mortes confirmadas, foi realizada uma adaptação da doença às peliculas de Hollywood, através do filme “fora de controlo” inspirado pelo vírus do ébola, introduzindo também conceitos da doença puramente provenientes da ficção científica.

 

Como se transmite?

O ébola não se transmite pelo ar (como por exemplo o vírus da gripe). Transmite-se sim, através do contacto direto ou indireto de fluidos contaminados com as mucosas ou lesões cutâneas. Deste modo, o contágio requer obrigatoriamente o contacto com fluidos contaminados (por exemplo suor, saliva, fezes, vómito ou sangue), de modo direto (contacto direto com os fluidos) ou indireto (contacto por exemplo, com lençóis ou superfícies contendo fluídos contaminados), sendo ainda necessário que estes acedam a uma porta de entrada, sejam mucosas (olhos, boca, mucosa genital) ou lesões cutâneas (feridas). O contágio é feito por doentes (só em fase ativa da doença), cadáveres e sémen de antigos doentes (durante um período de 3 meses). Para além deste tipo de contágio, existem ainda os animais selvagens (macacos e antílopes, por exemplo) que podem transmitir a doença ao servirem de alimento ou quando mordem o ser humano e acredita-se (embora sem comprovação) que o morcego será o reservatório da doença, ou seja, aquele que a transporta sem adoecer.

Os sintomas da doença aparecem habitualmente entre 8 a 10 dias após contágio, podendo no entanto ocorrer nos 2 a 21 dias subsequentes. Só nesta fase é que o doente poderá transmitir a doença a outras pessoas. Os sintomas iniciais semelhantes a uma gripe (dor de cabeça, febre), rapidamente evoluem para uma situação complicada, apresentando diarreia, vómitos, falta de apetite e inflamação da garganta. Em 50% dos doentes surge ainda o exantema maculopapular, uma alteração cutânea marcada por vermelhidão local através de pequenas pápulas, como ocorre por exemplo no sarampo.

De 5 a 7 dias após a ocorrência dos primeiros sintomas, alguns doentes poderão experienciar o agravamento da situação com a entrada na fase hemorrágica da doença. Esta fase caracteriza-se por hemorragias externas ou internas, podendo levar a falência multiorgânica resultando, em último caso, na morte do doente.

 

O combate à epidemia

A situação que os países atravessam de momento mantém-se dramática. A ação inicial foi mais uma vez negligente, irresponsável por parte dos países mais desenvolvidos, mantendo o assunto na gaveta por ser mais uma epidemia de risco inócuo para os seus territórios. Ter-se-ão enganado? Para já não se enganaram, uma vez que os casos notificados são importados e não autóctones, mas já se assustaram o suficiente para desbloquear a atenção, meios e fundos ao combate à epidemia nos países onde cresce de dia para dia.

Não existe tratamento antiviral específico para a doença, com exceção dos soros experimentais que utilizam anticorpos desenvolvidos por sobreviventes da doença. No entanto, para além da sua disponibilidade reduzida, este tipo de tratamento mantém-se relativamente pouco estudado, desconhecendo a sua efetividade através de ensaios clínicos.

O tratamento da doença visa apenas, e não mais, combater os sinais e sintomas que vão surgindo ao longo da sua evolução. Manter um bom aporte de líquidos por via endovenosa, um bom equilíbrio de eletrólitos, bons níveis de oxigénio e uma pressão arterial estável, são um conjunto de boas medidas que devem ser desde o início atendidas, com vista à melhor probabilidade de sobrevivência do doente.

As vacinas desenvolvidas ainda não estão completamente testadas, não se sabendo ainda se irão ou não resultar. Apesar de duas vacinas distintas estarem num caminho promissor para a resolução do problema, desconhece-se se chegarão a bom porto bem como quando estarão efetivamente disponíveis para vacinações em massa, nos povos afetados pela doença.  

É por isso que o combate à doença está longe de terminar, desconhecendo-se o eventual desfecho que terá. De acordo com a base de dados Financial Tracking System, o financiamento internacional disponibilizado até ao momento para o combate à epidemia permite cobrir apenas 41% das necessidades identificadas. Para além da disponibilidade de serviços de saúde específicos para o tratamento do ébola, outros setores terão de providenciar resposta para que se consiga inverter a mortalidade observada. Os setores alimentar e de água, saneamento e higiene desempenham também um papel importante no combate ao ébola.

A alimentação visa o bom aporte nutricional a uma população que apresenta per si níveis de desnutrição crónica acentuada. A nutrição representa uma transversalidade entre saúde e doença, ou seja se é verdade que uma pessoa desnutrida está muito mais suscetível a doenças infeciosas, bem como aos próprios efeitos adversos da doença, o inverso também se observa pelo que garantido melhor aporte nutricional às populações afetadas, obter-se-á uma melhor proteção natural e consequente aumento de sobrevivência à doença.

A água e saneamento por sua vez trabalha aspetos de transmissão da doença. É sabido desde o início da saúde pública, que o saneamento do meio representa uma peça fundamental quando se aborda qualquer doença transmissível.

Países com fragilidades severas nos sistemas de água e saneamento do meio, tais como enfrenta a Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, são fatores que levantam por si o risco de contágio dentro do agregado familiar e própria comunidade. O Banco Mundial estima que o acesso a latrinas ou outras estruturas sanitárias melhoradas localiza-se entre os 13-19% nos países em questão e o acesso a água potável varia entre os 60-75%. A defecação ao ar livre, a utilização de águas contaminadas por possíveis fluidos de doentes e a própria aplicação de rituais fúnebres com práticas de risco, tais como lavar com as mãos os cadáveres dos entes queridos, surgem como potenciadores extremos do contágio.

Há assim, que assegurar um meio ambiente mais seguro, garantindo às populações afetadas um melhor e maior acesso a água potável, bem como incidir em práticas de prevenção da doença, com adesão populacional.

A doença por vírus ébola passou de uma doença desconhecida e ignorada, a uma doença preocupante e que é urgente conhecer e combater melhor. As mortes trágicas contabilizadas até ao momento poderiam ter sido evitadas, na sua maioria, se tivesse havido por parte da comunidade internacional uma resposta atempada, adequada e à escala necessária para um controlo inicial da epidemia.

O futuro parece promissor na inversão da tendência de descontrolo epidemiológico da doença, no entanto torna-se necessário que o compromisso internacional se traduza nas ações necessárias, não se mantendo apenas nas intenções e no labirinto dos entraves burocráticos.

 

 

 

 

Balanço de 10 anos pós Tsunami no Sri Lanka

No dia 26 de dezembro de 2004, vários sismos seguidos de Tsunami ocorreram no sudeste asiático, com um efeito devastador em 11 países do Oceano Índico, causando centenas de milhares de mortos, desaparecidos, deslocados e sem abrigo.

O Sri Lanka foi um dos países mais afetados por esta tragédia, tendo o seu Governo declarado estado de emergência e lançado um pedido de auxílio internacional. No final de janeiro, contabilizavam-se cerca de 300.000 mortos em todo o sudeste asiático, 40.000 destes no Sri Lanka. Neste país, registaram-se ainda quase 5.700 desaparecidos, 15.200 feridos e 41.300 famílias (cerca de 168.000 pessoas) alojadas em campos de deslocados.

Rapidamente, a AMI decidiu intervir no Sri Lanka, não só porque foi um dos países mais afetados como também por ser um dos mais pobres.

Em 28 de dezembro de 2004 partiram para o terreno o Dr. Fernando Nobre, Presidente da AMI, e o Dr. José Luís Nobre, Administrador e Diretor do Departamento Logístico, com o objetivo de realizar uma missão exploratória para preparar a chegada da equipa expatriada.

No dia seguinte, 29 de dezembro, partiram 8 voluntários num avião fretado pela AMI, onde foram também enviadas 10 toneladas de alimentos, equipamentos e outros bens de ajuda humanitária.

Com a maior parte das estradas cortadas, a equipa exploratória procedeu ao aluguer de dois jeeps para transporte da equipa para Galle e Kalutara, cerca de 120 km a Sul de Colombo. Depois de um processo moroso de perto de 12 horas, as dez toneladas de bens de ajuda humanitária que a AMI enviou foram distribuídas aos deslocados a partir do dia seguinte ao desalfandegamento dos mesmos.

Instalada no Sul do Sri-Lanka, a equipa começou a operar em pleno, prestando apoio a campos de deslocados num raio de 30 km de Beruwala, em Sathgama.

Entretanto, em Portugal, foi impressionante a mobilização da sociedade civil (Amigos da AMI, entidades públicas e privadas) para ajudar no apoio às vítimas. Desde o dia 27 de dezembro de 2004 e durante as primeiras semanas de janeiro de 2005, não pararam de chegar chamadas telefónicas para a sede da AMI, de pessoas e empresas oferecendo ajuda financeira, donativos em espécie, apoio logístico, ajuda em serviços e voluntariado.

A AMI angariou 2.786.661,79€ até julho de 2005, um montante que permitiu manter uma equipa expatriada no Sri Lanka até janeiro de 2006. Esta generosidade levou a que, paralelamente à missão médico-sanitária de emergência fossem estabelecidos contactos para preparar projetos a médio e longo prazo de reabilitação de estruturas médicas e sociais, tendo permitido a ajuda da AMI manter-se por mais 10 anos através de projetos em parceria com organizações locais.

Mais informações sobre os projetos da AMI no Sri Lanka no link: http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p7p28p135&l=1

Dia de África: AMI alerta para problemas deste continente

No Dia de África, a AMI alerta para gravíssimos problemas que assolam este continente. O crescimento demográfico muito elevado (duplicação em 20 a 25 anos da população da África subsaariana), aliado a um contexto de pobreza agravada pelas alterações climáticas e de défice de educação, levam a fenómenos migratórios de dimensão impressionante e com desfechos geralmente trágicos. Condenados nos seus países de origem a uma vida de pobreza extrema, milhares de cidadãos, desfazem-se do pouco que têm aliciados pela promessa de uma vida melhor na Europa. A maior parte deles arrisca a sua vida através do deserto em longas viagens até a um falso paraíso e, uma vez chegados à Europa, aguarda-os a deportação, tornando-se alvos fáceis das redes extremistas já fortemente ativas na zona do Sahel. Importa pois insistir na criação de condições para investir na educação e no desenvolvimento, a única forma de fixar eficazmente as populações e criar-lhes condições para melhorar as suas vidas.

A AMI desenvolve numerosos projetos em África com estes objetivos, nomeadamente nas vertentes da educação, capacitação e autonomia em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Burundi, Costa do Marfim, Gana, Senegal, Uganda, Ruanda e Zimbabué e, mais recentemente, no Chade e no Níger.

 

 

“Não estava à espera de encontrar tanta destruição”

De umas férias de sonho, num ambiente paradisíaco, para um cenário de destruição e catástrofe em apenas poucos dias. Sofia Costa, 28 anos, encontrava-se   juntamente com o seu companheiro Tiago Swart nas Filipinas no dia 8 de novembro, data em que o tufão Haiyan arrasou a ilha de Leyte, tirando a vida a mais 4 mil pessoas. As televisões locais alertaram para o potencial destruidor do tufão, apelando à população para tomar medidas de  precaução e segurança. “Fomos evacuados do hotel onde nos encontrávamos na ilha de Siargao para uma residência na montanha”, recorda Sofia Costa. O Haiyan atingiu, na ilha vizinha de Leyte, com máxima força, chegando ao grau 5, o mais elevado na escala de Saffir-Simpson.

 

 Passadas pouco mais de 48 horas, Sofia e Tiago foram destacados pela AMI para realizar uma missão exploratória na cidade mais   atingida pela catástrofe: Tacloban. Objetivo: recolher o máximo de informação possível sobre a situação real no terreno e estabelecer contacto com organizações locais para que a equipa de emergência da AMI iniciasse o mais   rápida e eficazmente possível a assistência humanitária à população. “Não estava à espera de encontrar tanta destruição”, confessa. “Do porto da ilha de Leyte ao centro de Tacloban são cerca de três horas de caminho. Durante esse trajeto, pude testemunhar um cenário de devastação total”. Na viagem até Tacloban, Sofia cruzou-se como as Irmãs da Caridade. Rapidamente estabeleceu contacto e, poucas horas depois, foi   visitar as instalações da congregação fundada por Madre Teresa de Calcutá. Um dos centros ficou sem teto.

 

A população apoiada nesta infraestrutura abrigava-se onde podia. Os voluntários da AMI iniciaram o primeiro auxílio com mantimentos adquiridos na ilha vizinha. “Levámos o que cabia na carrinha”, recorda. Alimentos e medicamentos, bens de  primeira necessidade. “Nos primeiros dois dias em Tacloban não tivemos tempo para dormir. Relatos de pessoas que perderam tudo. Agregados familiares de dez pessoas que passam a apenas uma, mães desesperadas à procura dos filhos, são testemunhos que nunca irei esquecer”, recorda.

 

Após dias de intenso trabalho, poucas horas de sono e muito cansaço, Sofia  pôde finalmente cumprimentar os quatro elementos da AMI que chegaram, no dia 21 de novembro, ao terreno. Era o reforço da missão de emergência.

A equipa contou com o financiamento do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e de donativos da sociedade civil através da Campanha lançada graças ao habitual e criativo apoio da Young & Rubicam.

A equipa regressou  a Portugal no dia 13 de dezembro com espírito de missão cumprida.

Sofia recorda e elogia o espírito empreendedor do povo filipino. “Num cenário de catástrofe manifestaram uma força de vontade e uma coragem  impressionantes.”