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AMI - Age, Muda, Integra

II Conferência AMI/Global Compact Network Portugal: "Uma Economia Verde num Mundo Azul"

 

Um tema central para Portugal e para o Mundo.” Foi assim que Fernando Nobre, presidente da Fundação AMI, começou por justificar a realização da segunda Conferência AMI/Global Compact Network Portugal.

O auditório Almada Negreiros, no Porto de Lisboa, foi o palco para a reflexão que juntou políticos, académicos, empresários e organizações da sociedade civil para debater a proteção ambiental, mas também novas soluções tecnológicas e projectos que possam desenvolver-se no mar.

Com uma vista privilegiada sobre o Rio Tejo, Fernando Nobre, na abertura da Conferência, referiu que a história de Portugal está indelevelmente relacionada com o mar e que, nas últimas décadas, não dedicámos a atenção que devíamos ao nosso mar, preferindo apostar em outros investimentos não-reprodutivos.  

O segundo orador foi o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva. Felicitando a Fundação AMI pela iniciativa, reforçou a centralidade desta temática, sustentando que a aposta no crescimento verde é um importante pilar económico, assistindo-se a sinais de agravamento ambiental mundial e a uma pressão demográfica crescente, sobretudo nos países em desenvolvimento. No caso concreto de Portugal, confrontamo-nos com o problema estrutural da perda de água e com uma dependência energética do exterior que ainda ronda os 71,5%.

Jorge Moreira da Silva explicou que este é um domínio em que Portugal possui talentos, infra-estruturas e experiência, devendo ser um desígnio nacional que vá para além das divergências entre partidos políticos e correntes ideológicas. Reafirmou ainda que esta é uma das áreas em que a estabilidade das políticas públicas é mais necessária.

Antes da “mesa-redonda” ter início, foi a vez de Helena Vieira tomar a palavra. Professora convidada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Helena Vieira aludiu à plataforma continental Portuguesa, a maior da Europa e uma das maiores do Mundo. Apresentou igualmente alguns dados estatísticos relevantes: 2,5% do PIB português está relacionado com o Mar e, aproximadamente, 2% do emprego no nosso país gira em torno deste setor.

Pretendendo a Conferência reflectir sobre os novos paradigmas ambientais, que tocam não só as energias renováveis e o potencial económico dos oceanos (em particular da plataforma continental portuguesa), assim como as diversas sinergias e boas práticas emergentes entre Estados, sociedade civil e tecido empresarial, houve lugar também para um debate.

Os vários participantes deixaram ideias importantes do que já se faz e do que se deve fazer nos tempos vindouros. Aldino Santos Campos, responsável da estrutura de missão para a extensão da plataforma continental, salientou a importância de criar condições que levem as pessoas a trabalhar no mar, uma vez que esta actividade não se traduz em resultados visíveis no curto e médio prazo. Luís Gato, professor regente da cadeira de Energias Renováveis no Instituto Superior Técnico, defendeu o desenvolvimento da criatividade, logo ao nível do ensino básico e secundário (na esteira da tradição anglo-saxónica). Nuno Sequeira, Presidente da Quercus, recuperou uma ideia que já havia sido transmitida pelo ministro Jorge Moreira da Silva: é imperioso nas áreas do ambiente e do mar manter uma perenidade de políticas, que vá para além dos ciclos governativos.

Destaque também mereceu a apresentação de uma boa prática ambiental relacionada com o tema. Da vontade de alterar percepções, atitudes e acções relativamente à poluição, nasceu a Ocean Sole Foundation. Foi posta de pé, no Quénia, pela bióloga marinha Julie Church, que veio a Lisboa apresentar o seu projeto, uma solução simples que resolveu um problema ambiental nas praias daquele país. A ideia inovadora de reciclar o plástico e a borracha que poluem as praias, tornou-se o sustento de populações muito pobres do litoral do Quénia que recolhem o lixo e aproveitam alguns materiais para fazer peças de decoração (sobretudo, representações de animais africanos) de várias dimensões que já são exportadas.

No término da segunda Conferência AMI/Global Compact Network Portugal, houve ainda lugar para dois interlocutores do UN Global Compact tomaram a palavra. A nível nacional, Mário Parra da Silva, responsável máximo desde 2009 e também presidente da Associação Portuguesa de Ética Empresarial, referiu que a rede em Portugal conta já com 70 participantes. Visando uma ligação mais profunda entre “ação” e “critério de ação”, Mário Parra da Silva salientou que o UN Global Compact procura tornar “as empresas, sujeito e não objecto” e “que o sector empresarial tem que participar numa solução holística, global”. Sobre a escolha do tema “uma economia verde num mundo azul”, justificou-a com as alterações climáticas já vividas, que colocam em causa a sustentabilidade do actual modelo de desenvolvimento. A nível internacional, Steve Kenzie, representante da Global Compact Network do Reino Unido e Deputy Chair do Local Networks Advisory Group do UN Global Compact, explanou a arquitetura, os princípios e a acção levada a cabo por esta rede das Nações Unidas.

No final de uma proveitosa manhã de debate, saiu claramente reforçada a ideia, nas palavras da secretária-geral da Fundação AMI Luísa Nemésio, que “o mar não é só pesca e turismo, é muito mais do que isso”.