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AMI - Age, Muda, Integra

“Nem sempre escolhi os melhores caminhos”

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Jorge* foi taxista em Lisboa. Volvidos anos, trocou o volante do ligeiro por um camião e fez-se às estradas da Europa. As curvas da vida conduziram-no por vários altos e demasiados baixos. Viveu em Inglaterra, conheceu a Irlanda. Casou. Foi pai. Viveu a estabilidade e o sonho de uma família e de uma casa feliz. Acordou para um divórcio, transformado em desemprego, em solidão, em sem abrigo. Aos 54 anos olha pelo retrovisor da vida e vê alguns remorsos: “nem sempre fiz as melhores opções, nem sempre escolhi os melhores caminhos”.

 

Existe um arrependimento e uma mágoa que curvam o olhar. Uma timidez que encurta as frases, que poupa nas palavras, que economiza nos afetos. Existe uma culpa que o empurra para um lugar frio e triste, onde o perdão a nós próprios é mais dolorosa das solidões, mesmo quando nos visita vestida de apoio e aceitação alheia.

 

A revolução dos cravos trouxe consigo uma liberdade bruta sem manual de instruções. Terminada a ditadura, a sociedade portuguesa conheceu toda uma catarse de novos comportamentos, estéticas, formas de expressão e sobretudo de descompressão. Na vertigem da espuma desses dias loucos de utopia, de descoberta sem censura nem aviso, o universo das drogas ocupou um protagonismo até então desconhecido, entrando de forma avassaladora na vida de milhares de jovens.

 

Ainda adolescente, Jorge experimentou porque “não queria que o grupo de amigos me achasse diferente”, diz. “Na altura—recorda—não havia conhecimento sobre drogas nem dos seus efeitos. Era tudo novo. Não víamos ninguém a mendigar ou a viver na rua a quem pudéssemos dizer: olha o que a droga fez aquele tipo. Mesmo os meus pais queriam ajudar mas não sabiam como. Não existiam gabinetes nem institutos de apoio”.

 

Sem tempo para ler “Os Filhos da Droga”, de Christiane F., que serviriam de aviso exemplo para a geração seguinte, Jorge assistiu à morte de grande parte dos amigos, incapazes encontrarem uma saída para a inesperada dependência. “Não é nada fácil sair, acredita”. Felizmente, Jorge conseguiu. “Tens de voltar a acreditar em ti”, diz.

 

Atualmente, tem emprego, é jardineiro. Tem um quarto alugado e tempo suficiente para passear pela cidade. Na AMI encontrou apoio, formação, caminho, afeto. “Ajudaram-me bastante, deram-me um futuro”.

 

O Abrigo Noturno da Graça celebra hoje 18 anos. Inaugurado em 11 Novembro de 1997, este equipamento social já ajudou mais de 700 pessoas. Disponibiliza 26 camas e um programa de apoio psicossocial a pessoas em situação de sem-abrigo.

 

* Nome fictício

Fotografia: Nuno Lobito

 

 

Direitos humanos foram o tema da conferência Encontros Improváveis

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Dezenas de convidados e centenas de participantes juntaram-se no dia 5 de novembro no auditório da Gulbenkian, em Lisboa, para a 3ª edição dos Encontros Improváveis. Os Direitos Humanos foram o tema dominante que chamou a si realidades do trabalho infantil, papel da mulher, refugiados e alterações climáticas, entre outras.


Fernando Nobre abriu os trabalhos recordando a ligação da AMI à Global Compact Network Portugal e o facto desta ser a terceira das quatro conferências que remetem para os temas fundamentais que constituem os compromissos desta iniciativa das Nações Unidas. Antes de apresentar os oradores, o Presidente da AMI frisou que nunca é demais recordar que há 60 milhões de refugiados e que nunca imaginou, ao fim de todos estes anos, que o mundo pudesse defrontar-se com este tipo de problema.


Existem 168 milhões de crianças a trabalhar. Sendo este um dos maiores desafios e uma das questões colocadas ao 1ª painel.


Fátima Pinto, Presidente da Confederação Nacional de Ação Sobre Trabalho Infantil começou por referir que é penoso assistirmos em pleno século XXI a este fenómeno e verificar que ainda há tantas crianças impedidas de ir à escola, privadas de felicidade e futuro.


Mafalda Troncho, da Organização Internacional do Trabalho acrescentou que, apesar de tudo, a situação melhorou de forma significativa nos últimos anos, uma vez que a prevalência do trabalho infantil decresceu 30% desde 2008.


Já a representante da IKEA, salientou a importância das empresas que fazem questão de ter um impacto positivo nos mercados onde estão presentes, nomeadamente através da implementação de boas práticas e da constante procura da sustentabilidade.


O Papel da Mulher no Desenvolvimento foi o tema que juntou no 2º painel dois parceiros da AMI: a Associação Comunitária de Milagres, do Brasil, e a Hope Of Mother, do Afeganistão. As questões de género, a forma como dividem, oprimem, discriminam ou limitam homens e mulheres foram centrais.


Um imperativo de mudança foi consensual. Do Afeganistão ao Brasil, as questões parecem estranhamente recorrentes e idênticas. No entanto, as soluções para as superar não devem nem podem ser iguais. A importância da educação constitui para os participantes algo de consensual e incontornável.


Para o derradeiro painel estava reservada a discussão mais animada da 3ª Conferência Encontros Improváveis. O tema ajudou: Alterações Climáticas, Migrações e as Crises Humanitárias. A reflexão começou com a questão ambiental e as suas implicações. Mais concretamente, o que acontecerá ao planeta na ausência de medidas climáticas.


Sabendo-se que as alterações têm, nos tempos recentes, acentuado os fenómenos naturais extremos.Particularmente nos países mais frágeis. Ironicamente, os que menos contribuem para essas alterações. O Bangladesh é anualmente assolado por, cada vez mais numerosas e intensas catástrofes naturais, o que contribui a degradação das condições de vida dos seus habitantes.


Os movimentos migratórios que ultimamente têm sido protagonizados pelos refugiados foram inevitavelmente o tema que se sucedeu, tendo os oradores sido unanimes na sua classificação em relação à gravidade e necessidade absoluta de resolução.

 

A temática abordada este ano não poderia ser mais pertinente numa altura em que a ONU apresentou uma nova agenda para o desenvolvimento.  

 

A AMI reafirma o seu compromisso de apoiar os princípios do UN Global Compact e difundi-los, ciente da importância desta plataforma para a consolidação de uma aliança por um mundo melhor.


Acreditamos sinceramente que é nosso dever alertar para todas as decisões, movimentos e ações que possam de alguma forma ameaçar os Direitos Humanos e agravar a situação de todos aqueles cuja dignidade é constantemente desrespeitada.